<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819</id><updated>2012-01-11T09:55:52.018-02:00</updated><title type='text'>Pingo de tinta em página branca.</title><subtitle type='html'>Quando um historiador afeta o mundo ao qual faz parte.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>26</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-214948567226979960</id><published>2011-04-30T14:49:00.000-03:00</published><updated>2011-04-30T14:49:33.718-03:00</updated><title type='text'>Gol de placa. Autor: Vitor Lopes Moreira.</title><content type='html'>A sexta-feira amanheceu com todas as características para ser considerada um dia inserido na cotidianidade mais normal possível. Porém não o foi. Na noite anterior havia tido jogo do fluminense. Como bom apreciador da arte futebolística (e feliz rubro-negro que sou), não pude deixar de assistir. Realmente foi um bom jogo, pontuado por momentos de tensão e suspense, impasse e satisfação. Ou seja, elementos possíveis de caracterizá-lo como um thriller hollywoodiano que concorreria ao Oscar de melhor roteiro original. Melhor que esse jogo, só o do Barcelona contra o Real Madrid, que teve até Cristiano Ronaldo tendo ataque de pelanca em campo, promovendo um dos chiliques esportivos mais engraçados dos últimos tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até aí tudo bem. Dormi e acordei. Tudo normal. Descendo as escadas esbarro como meu pai na sala, de frente para a televisão ligada. Então ele pergunta: “E aí, você viu?”. Lógico que estaria me perguntando a respeito dos gols do jogo. Respondi: “Vi sim. E o Conca fez um golaço de falta, ao estilo Petkovic de ser”. Meu caro pai, senhor aposentado que passeia com o cachorro da família todo dia, me fez aquela cara de incompreensão, e, corrigindo sua pergunta inicial, que tinha sido feita de forma ambígua, tentou mais uma vez: “Estou perguntando se você viu o casamento do príncipe William”. Por essa eu não podia esperar. E ainda me contou que acordara às 4 horas da madrugada para não perder de jeito nenhum a cerimônia. Dede quando meu pai perdia um jogo para assim poder madrugar e assistir a um casamento? Os tempos estão mudando. Mas sinceramente, num presente onde o Lázaro Ramos roubou o posto de galã do José Mayer, e onde o Restatrt é considerado rock n’ roll, eu juro que nem me surpreendo mais com qualquer mudança comportamental ou social.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o melhor eram os jornais matinais fazendo sua chamada para as notícias. Globo, Record, Band... Todas as emissoras transmitiam logo de manhã notícias e detalhes sobre o casamento. Detalhes estes até supérfluos. Que mulher havia ido com o melhor vestido, como o melhor chapéu, os convidados mais cafonas, a quantidade de pombos presentes na praça... Alguém convidou a Amy Winehouse? Com certeza a festa iria ser melhor, e ainda geraria mais notícias espalhafatosas as quais os repórteres e jornalistas poderiam expor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O casamento do século XXI! E o século mal começou... Será que nos próximos 89 anos não vai haver nenhum casamento melhor? Nossa, fiquei até triste. Já até imagino o quanto minha futura esposa irá reclamar, pois nosso casamento não conseguirá chegar nem ao nível das rodas da carruagem real inglesa. É como chegar na caixa de bombons, na segunda-feira após a Páscoa, tentando achar o “Serenata de Amor” e... e... e só achar “Chocôco”, “Milkbar” e “Banana Mix”. É saber que nunca se terá o melhor, o bombom perfeito. Você leitor já passou por isso, e se bobear, na Páscoa da semana passada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Abadia de Westminter irá entrar nos futuros livros de História, mas não como o lugar onde em 1534 Henrique VIII aprovara o Ato de Supremacia, separando a Igreja da Inglaterra da Igreja Católica, e muito menos por lá estarem sepultados os corpos de Sir Isaac Newton e de Charles Darwin. Talvez seja lembrada por um casamento real, literalmente (não que tenha sido ficcional). É estranho a repercussão de tal notícia, deve ser culpa da globalização (e também do Google e do Facebook, diga-se de passagem).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer forma, parabéns ao povo inglês e à Família Real. Felicidades ao duque e à duquesa de Cambridge. E torçamos todos juntos para que eu não acorde na segunda-feira com meu pai vindo me informar quantos gols o príncipe William marcou na sua noite de lua-de-mel.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-214948567226979960?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/214948567226979960/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=214948567226979960' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/214948567226979960'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/214948567226979960'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2011/04/gol-de-placa-autor-vitor-lopes-moreira.html' title='Gol de placa. Autor: Vitor Lopes Moreira.'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-2859220001355492737</id><published>2011-04-22T11:13:00.004-03:00</published><updated>2011-04-26T21:37:24.920-03:00</updated><title type='text'>E sobre essa semana de três dias. Autor: Vitor Lopes Moreira.</title><content type='html'>Mais uma semana chega ao fim. Mas essa termina no meio, já que logo por cima vem o feriado, transformando dias úteis (que seriam trabalhados das nove às dezessete) em preguiças que podem durar um dia inteiro, ou também em farras que podem invadir inclusive as madrugadas. Essa semana foi realmente tensa. Não, não aconteceu nada de especial. Não ganhei na loteria (porque me esqueci de jogar). Na verdade eu gastei o dinheiro destinado ao jogo com bebidas, ou seja, troquei um vício (que poderia me gerar lucro) por outro (que poderá me dar uma cirrose). Também não me apaixonei nesta semana. A respeito da segunda opção, confesso que olhei de maneira atenciosa para alguém do sexo oposto no trem quando ia para o centro da cidade. No entanto, fiz isso tentando chamar sua atenção para que assim ela viesse me vender uma paçoca. O que fiquei na dúvida era se eu queria paçoca ou jujuba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resolvi começar a semana tirando aquele antigo fio branco que perdurava na minha barba faz tempo. Usei a pinça, já que ele é filho único ainda (que bom). Senti-me até mais jovem. Eu o mantinha como charme, mas descobri que um fio somente não produzia o efeito intelectual que eu esperava. Fui até dar aula com mais disposição. Mas foi aí que notei que realmente envelheci. Não entendi quando um aluno chamou o outro de “pipoca doce” na sala de aula. Mas tarde, pedi para que me explicassem, e assim descobri que o termo significa viado (é o com “i” mesmo, e não o com “e”) na gíria escolar contemporânea. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De onde inventaram isso? Juro, não consigo mais ver uma carrocinha de pipoca e não imaginar o pipoqueiro vestido todo de rosa cantando I Will survive a plenos pulmões. Não pude me conter, e minha mente insana começou a pensar nas variações que poderiam surgir: pipoca doce com leite condensado (essa faz doce mesmo, chega a ser grudenta); com granulado (fiz a equivalência de granulado à purpurina, surgindo assim algo que caracterize alguém ao estilo Priscila: a rainha do deserto); metade doce, metade salgada (indecisa ainda, em cima do muro, que não saiu do armário); e outras e outras variações doentias que só a minha imaginação perturbada consegue criar quando na verdade eu deveria estar concentrado fazendo algo útil (agora, por exemplo, eu deveria estar estudando, e não aqui postando).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí então notei que estava ficando velho mesmo. Culturalmente falando. Não era o fio branco na barba que me abria os olhos para o tempo que passava, mas sim as gírias que eu já não entendia os significados, além dos costumes que não foram criados por minha geração, mas por uma mais nova (esta, bem colorida e de franjas, ao estilo restardado de ser).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As aulas no mestrado também tornaram esta semana especial. O mestrado é aquele lugar onde o ego de algumas pessoas é quem elabora o pensamento, reproduzindo-o através da voz. Então elas tentam impressionar, citar referências de cor (que na verdade foram decoradas na noite anterior), relacionar autores que às vezes nem leram (ou só o resumo no Google), entre outros artifícios que não merecem o epíteto de acadêmicos. Enfim, trata-se de um show intelectual (e às vezes de falcatrua) a parte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meio a um debate, acusaram-me de que meus estudos de pesquisa de dissertação eram incipientes. Fiquei revoltado, não acreditei quando disseram. A primeira coisa que fiz quando cheguei em casa foi procurar o significado da palavra incipiente no dicionário. E foi aí que descobri que a palavra só assusta e intimida, quando na verdade não expressa muita coisa. O que ocorreu é que ela foi utilizada de uma maneira teatral tão eficaz que quase acreditei que ela representasse uma ameaça.  Mas o susto passou. O que ficou da lição foi que um dia ainda quero aprender a falar colocando nas palavras significados que elas não possuem, utilizando apenas o tom de voz (aos gritos) para isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas antes de saber o significado do termo incipiente, estava eu abalado no ônibus, cabisbaixo, triste com a porrada acadêmica que havia tomado. Eis que ouço um som familiar. Daqueles que você queria não conhecer. Sim, era ele, e vinha de uma pessoa específica. Eu caracterizo-a com um nome simples: funkeiro de transporte público.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este indivíduo entra à paisana, totalmente disfarçado. Às vezes consegue-se identificá-lo pelo boné colorido, ou pelo excesso de cordões pendurados no pescoço. Parece que ele se sente incomodado com o silêncio do ônibus, sacando assim sua arma (o celular com mp3). E é aí que o show e a falta de educação começam. Quando ele decide cantarolar, acompanhado a letra (existe letra?) da música (usei uma palavra inapropriada, eu sei), aí significa que o resto da sua viagem será um grande sacrifício ao qual você terá que sobreviver. Pensei em à campanha que já existe, e é intitulada de “Doe um fone de ouvido a um funkeiro e faça os outros passageiros mais felizes”. Quantas vezes você, que caso esteja lendo até aqui este texto, não foi abordado por tal figura urbana? E lhe garanto, é pior do que ser assaltado. No assalto, pelo menos o ladrão vai embora. É lógico que desisti de pensar que tal movimento funcionaria já que tais figuras, que não conseguem notar a existência de uma placa dizendo “É proibido ouvir som alto” (bem ao lado do trocador), talvez nem saibam qual seria o uso de um fone de ouvido, e ficassem ali quebrando a cabeça tentando achar uma utilidade para aquilo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei esgotado em casa. Nunca um trajeto havia me cansado tanto. Queria morrer. Postei até no facebook: “Quero morrer”. Acho que algumas pessoas interpretaram de maneira errada a frase, e acharam que eu iria me matar, achando que eu estivesse catatônico e com espírito suicida. Imediatamente apareceram vários “fulano curte isso”, “beltrano curte isso”, na tela. Quando mais de sessenta pessoas passaram a curtir, eu decidi que preciso rever minhas amizades. Mas enquanto isso, tiro essas idéias da minha cabeça, como que igual a um fio branco na barba sendo puxado por uma pinça, e relaxo sentado no sofá, ouvindo o bom e velho rock n’ roll. Imagina se eu tivesse gritado ao funkeiro: “Meu caro, esse seu estilo de música é incipiente! Um dia ainda evoluirá para o rock n’ roll”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha, talvez ele ficasse com medo, assim como eu fiquei. Um dia eu ainda aprendo essa arte com as palavras. Talvez o mestrado me ensine. Se não der, aprendo com a vida. Ou com o Google. Nunca gostei tanto que uma semana tivesse só três dias, pois já estava começando a me assustar com o que poderia vir a acontecer nos próximos. Que nosso feriadão não seja como essa semana de três dias.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-2859220001355492737?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/2859220001355492737/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=2859220001355492737' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/2859220001355492737'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/2859220001355492737'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2011/04/e-sobre-essa-semana-de-tres-dias-autor.html' title='E sobre essa semana de três dias. Autor: Vitor Lopes Moreira.'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-4263427301184491954</id><published>2011-04-07T22:36:00.001-03:00</published><updated>2011-04-07T22:37:39.254-03:00</updated><title type='text'>Apologia do giz no quadro ou o ofício do professor. Autor: Vitor Lopes Moreira.</title><content type='html'>Sabe quando você não tem a menor idéia de algo e mesmo assim tem que falar sobre? Eu chamo isso de “dar aula sem preparar o conteúdo”. Um amigo me pediu pra assumir a turma dele, “quebrar um galho”, coisa simples, aulinhas para 6º, 7º e 9º ano. O lado chato é que essa notícia me chegou hoje somente, às 00:20h da madrugada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisinha simples de se fazer? Apenas no campo teórico. Eu já não dou aula há muito tempo, pois me dedico exclusivamente ao meio acadêmico. Artigos, palestras, resenhas, coquetéis de lançamento de livros, mais uma resenha, um barzinho pra fazer uma média com o pessoal (quando se é pesquisador, a rede de sociabilidade é o que dita o seu currículo, lembrem-se disso), um artigo a mais, vontade de não escrever mais nada, enfim, tudo isso que todo historiador faz. Mesmo assim, fui para classe, deixando um texto do Marc Bloch ainda por ler e um artigo de mais de 40 páginas nem sequer aberto em cima da bancada, ambos para a aula de amanhã do mestrado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro empecilho é sempre achar o local da escola. Não sei como, mas sempre me pareceu que as escolas tentam desaparecer do mapa. E ainda por cima o Google maps sempre te indica a quilometragem a menos, tipo uns 20 ou 30 quilômetros a menos. Tradução disso: prejuízo com a gasolina do carro. Professor é a única profissão onde se paga para trabalhar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fui eu, com o ar condicionado desligado, afinal, professor tem que economizar em tudo, exceto nas palavras, porque quando não se sabe o conteúdo da matéria, temos que inventar. Uma hora e meia depois começa a aula. Um detalhe importante é que não foi uma hora e meia depois de eu ter saído de casa, mas sim uma hora e meia depois do horário o qual a aula deveria ter começado. Sem apostila, sem saber o que eu teria que ensinar, sem saber nem o que eu estava fazendo ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma correria danada, um aluno querendo bater no outro, o gordinho xingando a mãe do magrinho, o moreninho dando pontapé na amiga, e fora outras tentativas de agressões e xingamentos que eu possa não ter presenciado, já que alunos são seres ágeis e esguios, que sempre conseguem se camuflar da vista do professor. A vantagem de dar aula é que é a única profissão do mundo onde todos já foram estagiários, por pelo menos uns 15 anos. Mesmo assim quando se está lá em frente ao quadro negro, muitas coisas passam desapercebidas, o que deve ser resultado dessa tecnologia de hoje em dia, porque não é possível, no meu tempo eu não aloprava tanto em sala de aula (ou não? Não me lembro...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais bacana da experiência são os comentários e diálogos. Quando você fica discutindo textos de José Murilo de Carvalho, Koselleck, Leslie Bethell e toda a trupe de historiadores, você acaba esquecendo dos questionamentos simples que uma criança pode ter. Uma aluna implicou comigo porque eu desenhei o feudo diferente do que o professor deles desenhava (já que meu castelo estava do lado direito, quando deveria estar no esquerdo, acima da floresta, a qual eu também havia desenhado posicionada no lugar errado). Outra aluna, quando eu pedia as razões para o acontecimento de algo, sempre dizia que algum personagem importante da história havia “cheirado maconha” (no final da aula eu já estava quase perguntando à ela quanto de maconha ela tinha cheirado hoje para supor que todos os acontecimentos históricos tivessem a ver com isso). Ainda teve o aluno que disse que eu estava errado, pois é impossível o século XIX começar em 1801 e terminar em 1900, pois assim ele teria apenas 99 anos, e não 100.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o fato mais incrível de tudo foi a diretora ter me colocado para dar aula à duas turmas juntas. Uma de 6º ano e outra de 7º ano. Sim, isso mesmo. Caro amigo leitor, irei fazer-lhe uma simples pergunta: você já viu uma célula fazer mitose? Se você é do meio acadêmico e já esqueceu o que é isso eu lhe digo que é o nome biológico para quando a célula se divide em duas. Tendo visto isso ou não, no microscópio ou até mesmo no Discovery Channel, lhe faço a segunda pergunta: você já viu um professor fazer mitose?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que foi meu desejo do dia aprender a fazer mitose e me dividir em dois. Que inveja que eu senti das células. Meu caro, caso não tenha desistido da leitura deste artigo, e ainda esteja aqui comigo eu lhe digo uma coisa: é impossível dar duas aulas diferentes para duas turmas diferentes. Nem por mitose, e muito menos pegando o DeLorean do filme “De volta para o futuro” e voltando no tempo, ou, nem mesmo fazendo as duas coisas juntas se é possível realizar esta “simples função” a qual a diretora me encarregou hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após sobreviver a isso, peguei meu pagamento, entrei no carro e pensei estar livre. Dos alunos sim, mas o engarrafamento de quase duas horas ainda estava a minha espera. Chegando em casa, engoli  o jantar (comer calmamente é um luxo usufruído por poucos hoje em dia), tomei um banho de 3 minutos e sentei na escrivaninha do meu quarto. Olhei o livro do Marc Bloch que tinha que ler para a aula do mestrado de amanhã, e ele me olhou de volta. Refleti bastante (mais ou menos uns 5 segundos, no máximo), fechei-o. O desafio não está em renovar a historiografia, mas em conseguir dar uma aula descente e sobreviver aos alunos, sem surtar ou dar um ataque de loucura. Foi aí que eu fui até a geladeira, peguei uma cerveja bem gelada e fiz um brinde a algo que eu fiz e que Marc Bloch nem sequer ensina em seu livro. Agora eu termino este  post de hoje, pois ainda tenho que ir pegar minha segunda cerveja que deixei gelando.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-4263427301184491954?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/4263427301184491954/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=4263427301184491954' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/4263427301184491954'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/4263427301184491954'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2011/04/apologia-do-giz-no-quadro-ou-o-oficio.html' title='Apologia do giz no quadro ou o ofício do professor. Autor: Vitor Lopes Moreira.'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-5421324769308576770</id><published>2011-04-06T00:50:00.001-03:00</published><updated>2011-04-06T00:51:25.060-03:00</updated><title type='text'>FICHAMENTO: FUSCO, Rosário. Vida Literária. São Paulo: S.E. Panorama Ltda, 1940 (pp.214-221). Capítulo referente ao cronista João do Rio.</title><content type='html'>O autor chama a atenção para a importância de uma obra quando esta ultrapassa a geração em que foi produzida. Como ele ressalta, “a história da influência de um autor vale muito mais do que a história mesma de sua vida” (FUSCO, página 214). Assim, reavalia como o estudo de biografias são feitos. Ater-se a fatos é mais produtivo quando se avalia o quanto a produção de um autor paira sobre as gerações futuras, influenciando os demais mesmo após a sua morte. “Enquanto vivo, a sua proximidade exerce, sem dúvida alguma, uma espécie de ação de presença no tempo, controlando as opiniões dos seus contemporâneos. Depois de morto, só os reflexos do que criou, menos do que os reflexos do que viveu, como homem, importam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta forma, o autor aponta que as biografias não contribuem para maior grandeza ou descrédito de determinados autores, visto que se limitam a um espaço de tempo específico. Não vai além, não nota a posterior influência nas outras gerações, de outras épocas. Após esse argumento, Fusco diz: “Morto, João do Rio continua passeando na sua saudade, uma presença de todas as horas no seu espírito” (FUSCO, página 215). Propôs inovações originais em seus textos, mesclando literatura e jornalismo nas páginas dos jornais e dos livros. Rosário Fusco ressalta a “pobreza” dos cronistas atuais, e justifica a rememoração a João do Rio como um ponto de referência essencial para assim fazer críticas aos contemporâneos (década de 40).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“(...) Ainda é uma deformação lamentável de João do Rio que lemos, diariamente, nos jornais de todo o país. (...) Esse mérito de inovador ninguém, que seja imparcial e honesto, poderá negar á memória de João do Rio. Foi ele, inquestionavelmente, o mais original, o mais vivo, o mais ágil e o mais saboroso cronista do Brasil” (FUSCO, página 216). Rememora e descreve “criaturas desgraçadas”, pessoas comuns, agentes que faziam parte do cotidiano da cidade, mas que muitas vezes não eram enxergados da maneira mais correta. Ao comparar cronistas, é válido destacar o que o autor fala a respeito de outro escritor da época. Elogiando, diz que “dos cronistas mais populares que temos tido (...), sem que, no caso, atentemos para o valor objetivo de cada um, (...) só mesmo o Sr. Rubem Braga conseguiu, escapar, talvez, em função de sua esplendida espontaneidade anti-livresca, à influência irresistível de João do Rio” (FUSCO, página 217). Sobre outro romancista (Jorge Amado), diz que “só consegue ser magnífico cronista pela virgindade de seu talento, absolutamente livre de quaisquer compromissos literários ou estéticos” (FUSCO, página 217), mas afirma que “no dia em que o Sr. Jorge Amado aprender francês deixará de ser o romancista ótimo que é, assim como no dia em que o Sr. Rubem Braga iniciar a formação de um lastro maior de erudição passará a ser (...) o mais desinteressante cronista do mundo” (FUSCO, páginas 217 e 218).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Defendendo João do Rio, sua originalidade e magnitude, enfatiza que “(...) se enganam todos aqueles que vêem, no extraordinário cronista da cidade, apenas um escritor de frioleiras mundanas ou um explorador pouco escrupuloso dos pequenos dramas das ruas e vielas, sacando deles o mais patético sensacionalista do que uma lição de humanidade que a vida nos fornece, diariamente, para a nossa ascensão ou para a nossa queda, no abismo das concessões mais deprimentes ou das renúncias mais espetaculares” (FUSCO, página 218). A preocupação de João do Rio era ser sincero em seus escritos, característica essa que possibilitou com que desbancasse grande nomes literários da época ao lançar seu livro de estréia, “Religiões do Rio”. Trabalho este, muito elogiado pelo IHGB, tornando o autor membro-correspondente desta mesma instituição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poesia estaria agonizando graças a banalidade dos poetas. Se ganha em quantidade, perde-se em qualidade. “a poesia, se quiser salvar-se, tem que falar em prosa. (...) o modernismo não fez outra coisa. E o que João do Rio escreveu há cerca de 30 anos passados é tão atual nos dias que correm que ninguém ousará desmenti-lo” (FUSCO, página 220).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos tentaram denegrir a imagem de Paulo Barreto. Tentaram-lhe negar talento, em vista de sua arte, e também negaram-lhe a arte, em virtude de sua vida. Concluindo, Rosário Fusco pinta uma imagem de João do Rio. “Discutido, negado, calumiado, elogiado, João do Rio conseguiu transpor seu tempo. Essa é que é a verdade. E quando lemos as reportagens modernas, que os jornais de hoje publicam, entrevistando os padeiros, pescadores, o homem do realejo ou a mulher que vende bilhetes, o chauffeur de táxis ou o cambista do estribo de bonde, o gari ou o fotografo dos jardins sem flores da cidade, nem sabe o jornalista sabe que está repetindo João do Rio, que é uma ‘escola’ de João do Rio que ele está perpetuando, para argumentar a sua glória ou para compensar o descaso com que o tratamos. Descaso ou ignorância. Porque se a sua obra não vale em si, é forçoso reconhecer a influência poderosa, que até hoje progride, como causa ou como efeito de bagagem literária infinitamente menor de muita gente que anda por aí (...)” (FUSCO, página 220).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também romancista, era a crônica que dominava com maior desenvoltura e graça, dando gênero literário a uma espécie de escrita pertinente aos profissionais dos folhetins diários. Inovador, ao mesmo tempo que original. Não precisou de ressurreição, pois como enfatiza Rosário Fusco, João do Rio está mais vivo do que nunca, inclusive mais do que os próprios vivos que lhe prestam homenagens hoje em dia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-5421324769308576770?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/5421324769308576770/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=5421324769308576770' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/5421324769308576770'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/5421324769308576770'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2011/04/fichamento-fusco-rosario-vida-literaria.html' title='FICHAMENTO: FUSCO, Rosário. Vida Literária. São Paulo: S.E. Panorama Ltda, 1940 (pp.214-221). Capítulo referente ao cronista João do Rio.'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-8331874070109354310</id><published>2011-04-03T19:44:00.002-03:00</published><updated>2011-04-03T20:10:45.674-03:00</updated><title type='text'>O homem sem emoções (parte 1). Autor: Vitor Lopes Moreira</title><content type='html'>Certa vez conheci um indivíduo que se destacava em meio aos outros que passaram pela minha vida. Neste evidenciava-se nitidamente a maneira como divergia dos meios padronizados do comportamento humano. Não que buscasse estar no padrão. Sua maior virtude, como ele mesmo dizia, era não possuir nenhum laço emotivo com qualquer um com quem se relacionasse. À primeira vista, julgar-no-iam de infeliz e arrogante, louco também, mas muitos na verdade o chamavam era de mentiroso, já que afirmar algo impossível, estar convicto e acreditar em tal sacrilégio, tudo isto demonstrava que tal calúnia só podia ser obra dos que somente podem ser considerados insanos, ou talvez daqueles que apresentem fortes desvios de conduta psicológica, sendo então capazes de mentir a tal extremo e não se apavorar com as conseqüências frente aos quais a apresenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não que vivesse sozinho, pelo contrário, sempre envolto de companhias. Trabalhava, pagava suas contas, respirava, sabia ler e escrever, somar e subtrair, coisas tão normais e passíveis de pessoas identificadas igualmente como normais, e aos curiosos e céticos dizia que fez um pacto com a solidão, algo fora da imaginação dos que acreditavam nesses tipos de coisas, no entanto, não cuspia isso ao mundo, até porque nem mesmo com o mundo guardava alguma relação de afeto, por mínima que fosse. Até seu modo de andar pelas ruas era típico de alguém que não se interessava pelo ambiente ao redor, passos desconjuntados e imperfeitos, pisando por pisar, arrastando para trás o solo e todas as preocupações as quais não queria ter, como que dando coices para se afastar o máximo possível. Quase não notava diferenças, não percebia se aquela velha casa por qual passava todos os dias indo para o trabalho fora pintada e agora a fachada poderia estar exibindo um tênue tom de amarelo bem diferente do verde água que tivera por muito tempo, não tomava compaixão para com o mendigo que sempre lhe pedia os mesmos cinco ou dez centavos todos os dias, e nem mesmo considerava válido tentar espiar o jornal de quem lhe sentava ao lado do ônibus, incitado puramente pela curiosidade de saber qual notícia fazia a pessoa se prender àquela página mais que nas outras. Isto tudo não lhe importava, interiorizava-se ao extremo, e até mesmo buscava decorar datas comemorativas e mesmo aniversários por pura conveniência, para demonstrar a poucos certa habilidade em se relacionar, mesmo que falsamente, de uma forma não natural, quando na verdade pouco lhe importava números encaixados em meses, dias localizados em semanas; enfim, achara um eixo de equilíbrio minuciosamente trabalhado e que buscava atualizar constantemente, na tentativa de enganar a vida, que parecia passar ao seu redor, não o enlaçando a participar de seus fatos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lógico, é bom notar que isto tudo se trata de uma conseqüência, algo que na verdade nem queria, mas que passou a carregar como um fardo para uma vida sem frustrações, ressentimentos e sofrimentos. Já fora normal segundo os padrões ocidentais, embora também se considerasse como detentor de uma excepcional normalidade no atual presente, diferente da que todos possuíam, é fato. Achava que se tivesse seguido os conselhos que lhe deram na infância e adolescência seria alguém na vida, mas, como sentiu e seguiu suas próprias diretrizes, embora estas não fossem algo visto com bons olhos pelos demais, tornara-se em si próprio. Mais subjetivo talvez fosse impossível, por isso defendia sua visão de mundo e suas escolhas, não tão arbitrárias estas, fugindo o máximo do que a comunidade imaginada em que vivia tratava de impor a todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O turbilhão de devaneio adentrou em sua vida num momento em que, como sempre, não imaginava nenhuma mudança brusca. Estático sempre permanecera, no ócio emocional produtivo de sempre, andando na esteira da vida, que parte ao infinito sem nenhum momento de parada para se celebrar algo, nem mesmo para viver as nostalgias de memórias passadas. Sempre se abstivera dos relacionamentos, e isto também se aplicava aos que envolvessem pessoas do gênero oposto. Nunca passava de uma noite, nada mais que dividir uma cama, o que acabava por excluir um “bom dia”, ou um “até logo”, nunca se comprometia, afinal, não carregava tais palavras com nenhum sentimento ou intenção verdadeira, elas apenas saíam de um modo treinado, esculpidas na dureza dos sentimentos sólidos e secos, caso os possuísse realmente, respondendo simplesmente ao esforço cotidiano de se relacionar da maneira mais superficial possível, tentando na verdade se passar por normal e feliz, e não condicionado, amargurado e triste. Até que um dia o cumprimento saiu um pouco mais alto do que fora treinado habitualmente, as palavras pareceram ganhar certa agudez, típica esta dos que estão nervosos tentando esconder a intranqüilidade do momento, fazendo com que o tom desafine um pouco, escape do que  realmente tentaria se dizer. E tal desvio fora percebido pela pessoa a quem fora direcionado o gesto educado daquela tarde, de cabelos levemente cacheados em tom castanho único por demais, e sutilmente adornados com uma fita azul que fora propositalmente utilizada para combinar com a saia longa de executiva formal e com o sapatinho baixo cor de creme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que realmente acontecera? Foi isto que lhe passou pela cabeça. Por que acontecera de tal jeito? Foi isto o que passou pela cabeça dela num segundo momento. Os olhares se sustentaram por um meio segundo no qual a porta do elevador permanecera aberta, angustiante para qualquer apressado que quisesse sair ou entrar. E ela saiu, virando para trás só para confirmar de quem adveio aqueles dizeres diferentes, nervosos, que refletiam imaturidade sentimental, e acima de tudo, constrangimento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levou aquilo consigo, aquela situação estranha e nova passou a fazer parte de seu dia-a-dia. Habituou-se a pensar naquela que não lhe deu nem um segundo a mais de permanência na frente do elevador, aquela que lhe dissera uma frase simples, um “bom dia”, mas que de certa forma complexara sua mente de uma tal maneira inquietante, dessa forma que faz as pessoas revirarem na cama uma noite inteira, brigando com o lençol e o travesseiro, querendo dormir mas ao mesmo tempo querendo não parar de pensar naquilo que as aflige, que as tira o cômodo sono e lhes coloca na amargurada insônia, esta que perturba, atrapalha e chateia, mas que na verdade evidencia que há coisas muito mais importantes a se pensar, mais importantes inclusive do que essa passividade que o sono nos dá durante a noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;i&gt;continua...&lt;/i&gt;)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-8331874070109354310?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/8331874070109354310/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=8331874070109354310' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/8331874070109354310'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/8331874070109354310'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2011/04/o-homem-sem-emocoes-parte-1-autor-vitor.html' title='O homem sem emoções (parte 1). Autor: Vitor Lopes Moreira'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-6771446488694733823</id><published>2010-12-01T15:09:00.001-02:00</published><updated>2010-12-01T16:05:14.307-02:00</updated><title type='text'>Fichamento: CANDIDO, Antônio. Teresina etc. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980 (pp. 83-94).</title><content type='html'>Inicia-se o texto quando o autor faz referência a existência da figura do revolucionário profissional. Trata-se do “militante inteiramente consagrado à atividade política, materialmente sustentado por uma organização partidária, a que a princípio deve dar adesão completa, obediência sem reservas, todo o seu pensamento e a sua ação, não devendo, como um clérigo, ter outro compromisso” (CANDIDO, página 83).&lt;br /&gt;Entretanto, o autor também chama a atenção para outra figura importante no cenário intelectual, “o tipo oposto, do homem sem qualquer compromisso com a revolução, que freqüentemente até é contra ela, e no entanto nalgum período ou apenas algum instante da vida fez alguma coisa por ela: uma palavra, um ato, um artigo, uma contribuição, uma assinatura, o auxílio a um perseguido” (CANDIDO, página 83). Ato essencial e produtivo se mostra então atentar-se aos atos discordantes dos conformistas, os atos radicais dos conservadores, os períodos de lucidez revoltosa dos desinteressados, as lutas passageiras dos apáticos, etc. O importante é notar o quanto notícias ou acontecimentos mexem com a sensibilidade de intelectuais que num primeiro momento estariam desinteressados por tais eventos. Ao citar Bilac, por exemplo, menciona sua “simpatia nutrida pelo vago socialismo sentimental” (CANDIDO, página 86).&lt;br /&gt;A balança socialista pendia mais para a esfera humanitária do que pela políticas. Estes intelectuais inseriam-se nos movimentos mais devido ao inconformismo que por intenções meramente políticas e ideológicas (estas não representavam a justificativa principal para tal filiação). Antônio Cândido aponta que “esse radicalismo verbal (...) é o oposto exato do compromisso militante, que se exprime em suas formas mas estritas no quadro do partido” (CANDIDO, página 86). Manifestações de opiniões vagas muitas vezes possuíam resquícios socializantes em seus discursos. Como fala Luís Edmundo: “É assim que somos, quase todos, socialistas”. Não se pregava uma revolução somente no mundo das letras, mas também no âmbito das idéias sociais. Havia um “anarquismo e um socialismo de literatos”, de origens diversas e possuindo algumas variantes. Um “anarquismo humanitário” (CANDIDO, página 87), fruto de concepções passageiras e confusas. “Grande salada, estranha evolução como se vê. Mas é preciso lembrar mais uma vez que o ‘ódio ao burguês’ e o sentimento do papel excepcional do artista levavam a esses cozidos ideológicos.&lt;br /&gt;Ao caracterizar João do Rio, o autor aponta que o mesmo não possuiu nenhuma fase de anarquismo literário, nenhum interesse coerente pelos pontos de vista mais ou menos radicais. “Pelo contrário, as suas manifestações patrióticas são maciçamente conservadoras, do corte mais convencional. (...) Um jornalista adandinado, procurando usar a literatura para ter prestígio na roda elegante e acabando, segundo muitos, por vender a pena aos ricaços portugueses do Rio. Aliás, a imagem duvidosa que ficou dele foi a que ele quis, movido sem dúvida por aquela perversidade elegante copiada de Wilde e do desagradável Jean Lorrain” (CANDIDO, páginas 88 e 89).&lt;br /&gt;“Esse João do Rio desfrutável e rebolante atiçou as iras de muita gente, sobretudo as de Antônio Torres, que o trata de maneira tão desabrida que ainda hoje chega a constranger, chicoteando a sua alegada venalidade de escriba da colônia portuguesa e aludindo à sua triste morte dentro de um táxi com uma crueldade feroz. Mais tarde, Eló Pontes o apresenta como um ignorante apressado, plagiário, cínico ao ponto de inventar para si mesmo uma aura de escândalo e perversão que não corresponderia à realidade, mas que se colou para sempre ao seu nome. Foi preciso chegar a uma outra geração, que não o conheceu pessoalmente, para se ouvir a primeira voz justa, - a de Rosário Fusco, que o avalia bem e registra a sua influência sobre muitos contistas e cronista” (CANDIDO, página 89).&lt;br /&gt;Ao dar voz a diversos personagens em ao longo de sua obra, João do Rio apresentava um senso de justiça e uma coragem lúcida, características essas muitas vezes não encontradas nos adeptos do socialismo e do anarquismo. “Esse João do Rio clarividente é o da primeira fase, sem dúvida a melhor. O d’As religiões do Rio, d’A alma encantadora das ruas, de Cinematógrafo. Depois ele enveredou por uma lusofilia bastante suspeita e um patriotismo publicitário, retórico, bem pensante, ao mesmo tempo que afiava como contrapeso o esnobismo decadente e o franco cinismo. N’A alma encantadora das ruas há uma parte chamada ‘Três aspectos da miséria’ onde o olhar que registra passa por uma espécie de evolução, do pitoresco e da constatação para a cólera  e a revolta. A crônica denominada ironicamente ‘Sono calmo’ descreve a visita a um albergue noturno, um pouco como se fosse episódio picante do tipo da famosa ‘tournée des grands ducs’ em Paris. Mas a crônica sobre as crianças exploradas na mendicidade tem um certo arrepio de humanidade ferida. Nisso tudo há curiosidade pelo pitoresco da miséria e gosto perverso da aberração. (... ) Nesses casos ele estava desafinando no coro de louvações do tipo ‘o Rio civiliza-se’, que saudava a urbanização e o saneamento como feitos suficientes. Estava, na verdade, mostrando a ferida escondida pela ostentação” (CANDIDO, página 90).&lt;br /&gt;João do Rio passava dias ao sol, de bote, daqui pra li, superando obstáculos, a fim de poder observar a realidade atroz, que o movia pelo cenário urbano questionando os fatos observados. A vida do cronista, influenciado por Wilde, era marcada por um sentimentalismo radical. Faíscas de clarividência social marcavam sua obra, embora há de se lembrar que o escritor não fazia parte de nenhuma militância política. Ao retratar a greve do gás, em 1909, fica evidente a solidariedade intensa em relação ao operário e a percepção da greve como arma de luta. Revela uma organização social que destrói sistematicamente o pobre sem ao menos ter consciência dele. Seus pontos de crítica expandem-se numa revolta humanitária. Fala da perseguição sofrida por operários que ousam protestar: “De vez em quando, um desses devotos, também humilde, mas possuído da vontade fraterna de melhorar a sorte dos companheiros, surge, fala de ‘emancipação do operariado’ e de outras coisas graves, solenes e vazias. É um homem ao mar. Nem tu, nem aquele cavalheiro proprietário o conhecem. Mas a polícia já sabe que o bandido é um anarquista infame, os feitores não o largam com o olhar, os companheiros o evitam o chasqueiam na sua ignorância das suas idéias de associação de classe” (CANDIDO, página 94).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-6771446488694733823?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/6771446488694733823/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=6771446488694733823' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/6771446488694733823'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/6771446488694733823'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2010/12/candido-antonio-teresina-etc-rio-de.html' title='Fichamento: CANDIDO, Antônio. Teresina etc. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980 (pp. 83-94).'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-4727960935750437545</id><published>2010-02-26T16:49:00.008-03:00</published><updated>2010-06-06T21:25:10.173-03:00</updated><title type='text'>ASSIS, Machado de. Teoria do Medalhão. In.: Os melhores contos de Machado de Assis/ Seleção de Domício Proença Filho. São Paulo: Global, 2002.</title><content type='html'>A seguinte análise literária me foi proposta como trabalho final na disciplina &lt;em&gt;Literatura e História&lt;/em&gt;, ministrada pelos professores Denílson Botelho e Felipe Demier, no IFCS/UFRJ, ao longo do primeiro semestre de 2008. Resolvi trabalhar com um conto específico de Machado de Assis, visto sua magnitude e importância no cenário literário da época. Altamente descritivo, seus personagens muitas vezes transparecem a cultura e a mentalidade da época em que foram criados. Gênio das páginas anteriormente em branco, Machado as preenche não somente com meras palavras, mas com idéias, percepções e, acima de tudo, criticidade. Minha empreitada é curta e limitada, mas espero que aproveitem a leitura. E mais, leiam o próprio Machado, seu contos, seus livros, pois somente assim perceberão a infinitude de conhecimento que é transpassada através de suas obras. História e literatura são, portando, complementares no que diz respeito a uma análise sociológica de uma sociedade específica. Bem, melhor vocês lerem, afinal de contas, me delonguei demais nesta não tão breve apresentação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O conto machadiano escolhido à análise apresenta-se como rico em detalhes a serem elucidados, perspectivas e visões acerca de um determinado tempo, opiniões sociais, enfim, inúmeros pontos que por si sós resultariam em uma análise bastante extensa. Devido a isto, delimitarei o conteúdo trabalhado nesta apresentação, com o intuito de aprofundar a análise das problemáticas previamente selecionadas, resultando em uma melhoria qualitativa deste breve estudo.&lt;br /&gt;Janjão, aos 21 anos de idade, ouve os conselhos de seu pai acerca da vida que lhe espera pela frente. O possível caminho profissional do filho é detalhado, esquematizado e apresentado ao mesmo na véspera de sua maioridade. Assim se inicia o discurso patriarcal:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Vinte e um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. (...) Qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da obscuridade comum.”&lt;/em&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal conversa, ou, por assim dizer, um monólogo, acontece no ano de 1875, período final do Segundo Reinado, quando também o Brasil presenciava uma certa ebulição de idéias cientificistas e positivistas (isto será trabalhado detalhadamente mais a frente). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro ponto que merece destaque na obra de Machado é com certeza o autoritarismo das imposições sociais como determinador do comportamento do indivíduo. No sentido figurativo, medalhão é o “figurão; homem importante; indivíduo nulo, sem valor real, e cuja importância ou notoriedade consiste na fama adquirida no passado”  , e é para esta posição social que o pai de Janjão lhe aconselha, apresentando-lhe as mais incríveis teorias de como tal ocupação lhe garantirá prestígio e reconhecimento, astúcia e glória. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me porém, as instruções de um pai, e acabo como vês, sem outra consolação ou relevo moral, além das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende.”  &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Instruções ou imposições? Conselhos ou adestramento social? Isto reforça a hipótese aqui apresentada. Em seu conto, Machado de Assis é genial ao se limitar ao espaço físico do quarto onde se desenrola a conversa e ao mesmo tempo demonstrar todo um conjunto social, apresentado, através do dizeres do pai, por uma vasta rede social, e o meio como se inserir nela. Antes de tudo, uma boa inserção nos meios certos era uma garantia de ascensão profissional, e também social, no século XIX, e é por meio de tal especulação que o pai de Janjão lhe passa seus conhecimentos, de homem mais vivido, de alguém que mesmo não conseguindo objetivar o que queria em sua trajetória de vida, adquiriu experiência ao contato com os demais estratos sociais, juntando assim peças e informações, repassando-as ao filho, para que este trilhasse o caminho que a sorte não lhe deixara traçar quando jovem.&lt;br /&gt;O modo de se portar frente aos outros, o modo de se expressar, tudo isso Machado mostra como elementos que possibilitem entrar em círculos sociais mais fechados. Uma classe urbana então superior em aquisições, porém estagnada em real conhecimento e postura crítica e reflexiva, que se firmava no tempo através de discursos arcaicos, sem inovação nem mesmo adequação aos novos tempos, buscando enfrentar novas correntes de pensamento sem estarem de fato preparadas. Isto é visível no seguinte trecho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação ou de agradecimento”  &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma intelectualidade tipicamente, usando um termo atual, de fachada. Machado de Assis é ironicamente crítico, e as instruções do pai à Janjão evidenciam essa sua forma de narrar. O cientificismo é criticado, porém reconhecido em sua importância, pois: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“– Vejo por aí que vosmecê condena toda e qualquer aplicação de processos modernos? (Filho)&lt;br /&gt; – Entendamo-nos. Condeno a aplicação, louvo a denominação. O mesmo direi de toda a terminologia científica; deves decorá-la. Conquanto o rasgo peculiar do medalhão seja uma certa atitude de deus Término, e as ciências sejam obra do movimento humano, como tens de ser medalhão mais tarde, convém tomar as armas do teu tempo. (Pai)”  &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Reconhecem-se novas adaptações a novos tempos em meio a manutenção de certos valores e costumes. Em meio a essa reformulação de valores, outro aspecto que também merece destaque é a publicidade da imagem do indivíduo no meio social. Criar uma imagem aceita pela sociedade gera status e benefícios futuros, e isto não é algo que acontece de uma hora para a outra, mas que é construída ao longo do tempo, através dos contatos sociais adequados, buscando assim aceitação, visando ganhar espaço e reconhecimento, além de respeito e autoridade. Busca-se promover assim uma imagem em um meio social específico. Na fala do pai de Janjão, isto se expressa da seguinte forma:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“– Não te falei ainda dos benefícios da publicidade. A publicidade é uma dona loureira e senhoril, que tu deves reqüestrar à força de pequenos mimos, confeitos, almofadinhas, coisas miúdas, que antes exprimem a constância do afeto do que o atrevimento e a ambição.”&lt;/em&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O pai apresenta ao filho a vida como ela deveria ser, e não como se imagina que ela seja. A realidade crua é apresentada à Janjão, e Machado explora isso muito bem, afirmando a existência de redes sociais que possibilitam o crescimento do indivíduo, algo bem oposto ao meriticismo (ascensão pelo mérito) típico das correntes positivistas, que ganharam destaque nos anos anteriores a Proclamação da República em 1889 (argumento este defendido por Celso Castro em seu livro ). Um fim é objetivado e almejado, por isso, os meios pelos quais o indivíduo se utiliza são válidos a partir do momento em que o insere em uma esfera social que lhe possibilita certos diálogos, e assim, reconhecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“(...) dado que por um tal ou qual escrúpulo, aliás desculpável, não queiras com a própria mão anexar ao teu nome os qualitativos dignos dele, incumbe a notícia a algum amigo ou parente.”&lt;/em&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E também:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“(...) Acabou-se a necessidade de farejar ocasiões, comissões, irmandades; elas virão ter contigo, com o seu ar pesadão e cru de substantivos desajeitados, e tu terás o adjetivo destas orações opacas, o odorífero das flores, o anilado dos anéis, o prestimoso dos cidadãos, o noticioso e suculento dos relatórios. E ser isso é o principal, porque o adjetivo é a alma do idioma, a sua porção idealística e metafísica. O substantivo é a realidade nua e crua, é o naturalismo do vocabulário”&lt;/em&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Os apontamentos do pai são altamente estratégicos para que Janjão sobressaia-se socialmente, construa seu espaço na sociedade, espaço este que deve, primeiramente, ser reconhecido pelos que lhe circundam, para que assim ganhe validade e seja legitimado. O que ocorre é: define-se um objetivo, busca-se enxergar a realidade como ela é e se apresenta, reflete-se como a partir de tal realidade se pode chegar à situação almejada no objetivo, para que aí o mesmo seja revisado, possibilitando a elaboração de táticas que auxiliem a concretização de tal objetivo a partir de um processo gradual de metas realistas e sólidas. &lt;br /&gt; A teoria de conquista pessoal e reconhecimento social apresentada pelo pai de Janjão nada mais é que a doutrina de Maquiavel, algo que se pode perceber claramente ao final do conto, quando o diálogo se finaliza para que pai e filho possam então dormir. Machado, na voz do pai, fecha seu texto de maneira brilhante:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“–Meia-noite? Entras nos teus vinte e dois anos, meu peralta; estás definitivamente maior. Vamos dormir, que é tarde. Rumina bem o que te disse, meu filho.Guardadas as proporções, a conversa desta noite vale o Príncipe de Machiavelli. Vamos dormir”&lt;/em&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Os conselhos foram passados. Cabe agora a Janjão empregá-los à sua vida, caso contrário, segundo seu pai, não terá sucesso em sua ascensão social e profissional. O autoritarismo da sociedade ao indivíduo, de como se portar e agir, se evidencia ao término do conto, o que reforça a hipótese defendida e apresentada anteriormente no início deste estudo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-4727960935750437545?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/4727960935750437545/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=4727960935750437545' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/4727960935750437545'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/4727960935750437545'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2010/02/assis-machado-de-teoria-do-medalhao-in.html' title='ASSIS, Machado de. Teoria do Medalhão. In.: Os melhores contos de Machado de Assis/ Seleção de Domício Proença Filho. São Paulo: Global, 2002.'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-7777819876880554686</id><published>2010-02-23T23:49:00.000-03:00</published><updated>2010-02-23T23:52:14.625-03:00</updated><title type='text'>Te significo de algo próprio</title><content type='html'>Às vezes paro e penso nas coisas mais pífias que estão ao nosso redor. Vejo que por serem ridículas e não possuírem um significado além daquele presente nas páginas gramaticais talvez devessem ser relegadas ao esquecimento, à obscuricidade da memória, naquele canto onde a gente só busca as coisas quando realmente precisa, quando no alarde da necessidade tudo nos foge, e é necessário fazer aquele esforço cerebral que ultrapassa o real significado daquilo que se busca entender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso num cone por exemplo. Destes que ficam no meio da rua, laranjamente imóvel. Esfericamente proporcional, milimetricamente dividido em duas cores, possuindo um raio simétrico que vai se afunilando até a ponta, quando se torna igual a zero. Visto assim trata-se só de um material sem muita utilidade, a não ser para evitar acidentes no trânsito, mas no ócio que me permeia, atento-me a verificar mais além, no mais ridículo significado abstrato. Tão simples, reto, sem nenhum atrativo mesmo, nada que chame atenção. Sem graça, todo por igual, com aquela base que o sustenta, pois se não a tivesse talvez nem mesmo conseguiria ficar em pé, podendo um vento qualquer provocado por um veículo que passe perto demais ter a chance de derrubá-lo, tornando-o inativo, sem função, solitário e caído no meio do asfalto, completamente sem utilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas aí me lembro da curva que realmente ele possui, sua relevância corporal, seu brilho ofuscante na noite, sua maneira de impactar, dessas que faz você olhar mesmo que não queira, mesmo que tente desviar o as pupilas, fechar as pálpebras. Atropela-se um pedestre, mas nunca um cone. Ele tem seu espaço, seu território, sua área demarcada, todos esgueiram-se ao seu redor, poucos ousando tocar-lhe. Que frenesi! &lt;br /&gt;Então me lembro de Marieta, figura estática, nula, nada demais, daquelas ditas “sem sal”, que não chama atenção, só ficando ali parada, sendo alvo de contato visual, viradas de pescoço dos que passam, alguns nem a percebendo. Quase um cone em meio ao trânsito de pessoas. Na faculdade tinha seu espaço próprio, reservado, poucas vezes violado, quase nunca infringido por um estranho, alguém que cruze o seu caminho e detenha o mínimo de atenção que mereça. Mas tinha seu brilho próprio, fosforescente como neón. O desenho do corpo: os quadris largos, afunilando-se na vertical para cima, seios discretos, destes que não provocam o instinto masculino, apenas quando descobertos no calor da madrugada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo vejo que não tão pífio se é um cone quando comparado a alguém, quando visto que ultrapassa sua limitação gramatical. Acariciava Marieta sem muita resposta, sentimentos quase feitos de plástico, escondidos, precisando fogo para mexer as moléculas, fazendo-as derreter. Não que fosse um cone por completo, só que quando vejo um me recordo dela, me lembro de seu jeito e de sua aparência. Não que a considero-a ridícula, pífia, improdutiva, muito menos improdutiva e miserável, sem utilidade, mas na mais íntima verdade a vejo agora como uma pessoa inerte, em que é necessário um esbarrão para que um acidente megalomaníaco aconteça, destes que é capaz de mudar sua vivência, para pior ou para melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Associo a palavra cone à Marieta não por maldade, mas assimilação, e não viso denegrir sua imagem, mas ressaltar suas características. No seu silêncio ela quebrou o meu, fez com que meus parâmetros capotassem, e acima de tudo, me fez perceber que por mais simples que as coisas pareçam ser, elas não o são, apenas não ganharam seu significado a partir de outro ponto de vista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fevereiro de 2010&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-7777819876880554686?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/7777819876880554686/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=7777819876880554686' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/7777819876880554686'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/7777819876880554686'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2010/02/te-significo-de-algo-proprio.html' title='Te significo de algo próprio'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-4400595722574960759</id><published>2009-07-16T15:41:00.001-03:00</published><updated>2010-12-01T16:04:38.669-02:00</updated><title type='text'>Fichamento: TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.</title><content type='html'>Apresentação à edição brasileira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fenômeno formalista impregnou o campo da teoria literária, assim como as produções acadêmicas relacionadas às ciências sociais. Apesar de ser considerado um dos principais expoentes de tal corrente, Tzvetan Todorov modela sua argumentação ao redor da crítica à empregabilidade de tal modelo. O estruturalismo, quando se apresenta radical e exclusivo, “afasta a obra literária de toda relação possível que ela possa ter com o mundo, com o real, com a vida” (TODOROV, página 8). Tenta-se a captação da verdade intrínseca do texto como um mundo à parte, buscando-se alcançar a maior imanência possível da obra. Para Todorov, o perigo que hoje ronda a literatura é “o de não ter poder algum, o de não participar da formação cultural do indivíduo, do cidadão” (TODOROV, página 8). Isto quer dizer que não faltam aos estudantes de letras, por exemplo, capacidade intelectual ou espírito crítico, falta-lhes atribuir à literatura um significado mais amplo, talvez irredutível à dissecação estruturalista, onde a literatura faz parte tanto da formação intelectual quanto também afetiva. Como diz Caio Meira, “o contato maior que qualquer aluno do ensino médio tem com o texto literário de fato se dá seja nas abonações e exemplos que auxiliam na compreensão das regras e formações da língua portuguesa, seja nas próprias aulas de literatura, que se resumem principalmente ao ensino da história e dos gêneros literários” (TODOROV, página 9)&lt;br /&gt;A principal problemática que Todorov apresenta é como a literatura tem sido apresentada aos jovens, desde a escola primária até a faculdade. O estudante não entraria em contato com os textos diretamente, haveria uma inversão, fazendo com que tivesse contato primeiramente com alguma forma de crítica, de teoria ou de história literária, o que caracterizaria o acesso á literatura como algo disciplinar e institucional. Todorov em nenhum momento nega a contribuição estruturalista, apenas renega-a ao seu devido espaço. “Ou seja, o que Todorov reivindica é que o texto literário volte a ocupar o centro e não a periferia do processo educacional (e, por conseguinte, na nossa formação como cidadãos), em especial nos cursos de literatura” (TODOROV, página 11). Literatura como algo, antes de tudo, social, e que tudo seja lido e discutido por gosto e interesse antes de ser classificado ou periodizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prólogo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Venerar a leitura possibilita adentrar no universo dos escritores, sejam eles clássicos ou contemporâneos. O estudo das ciências humanas se mostra imparcial quando dominado por alguma ideologia (o ideal socialista, por exemplo). Deve-se tratar os objetos sem nenhum cerne ideológico, mas não limitar-se a analisar um texto simplesmente a partir de sua materialidade, seus recursos lingüísticos, pois isso limitar-se-ia a uma simples análise de técnica literária. Quando mudou-se para a Paris por motivos de estudos, e em contato com Roland Barthes, professor da École des Hautes Études, Todorov comenta que tentaram “modificar a orientação do ensino literário na universidade, a fim de libertá-la dos grilhões das nações e dos séculos, e promover sua abertura a tudo que pode aproximar as obras umas das outras” (TODOROV, páginas 20-21). A partir de então, a influência da democracia pluralista francesa mostrou-se predominante sobre o totalitarismo búlgaro a que estava acostumado. Como ele mesmo diz: “minhas escolhas de abordagem da literatura: o pensamento e os valores contidos em cada obra não se viam mais aprisionadas numa coleira ideológica preestabelecida; não havia mais razões para pô-los de lado e ignorá-los. As causas de meu interesse exclusivo pela matéria verbal dos textos haviam desaparecido. De meados dos anos 70 em diante, perdi o interesse pelos métodos de análise literária e passei a me dedicar à análise em si, isto é, aos encontros com os autores. A partir daí, meu amor pela literatura não se via mais limitado à educação recebida em meu país totalitário. De imediato, tive que procurar dominar novas ferramentas de trabalho; senti necessidade de me familiarizar com elementos e conceitos da psicologia, da antropologia e da história. Uma vez que as idéias dos autores recuperavam todas as suas forças, quis, para melhor compreendê-los, mergulhar na história do pensamento que concerne ao homem e suas sociedades, na filosofia moral e política. Sendo assim, o próprio objeto desse trabalho de conhecimento se ampliou. A literatura não nasce no vazio, mas no centro de um conjunto de discursos vivos, compartilhando com eles numerosas características; não é por acaso que, ao longo da história, suas fronteiras foram inconstantes. Senti-me atraído por essas formas diversas de expressão, não em detrimento da literatura, mas ao lado dela” (TODOROV, páginas 21-22).&lt;br /&gt;“Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver. (...) A literatura amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo. (...) A literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e, por isso, nos enriquece infinitamente. Ela nos proporciona sensações insubstituíveis que fazem o mundo real se tornar mais pleno de sentido e mais belo. Longe de ser um simples entretenimento, uma distração reservada às pessoas educadas, ela permite que cada um responda melhor à sua vocação de ser humano” (TODOROV, páginas 23-24). Desta maneira, o autor destaca a possibilidade de a literatura ser passível de uma utilização subjetiva, para a formação individual de cada indivíduo como tal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A literatura reduzida ao absurdo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao analisar a literatura ensinada nos colégios, Todorov evidencia o papel controverso que a mesma adquire. Compreende que os estudos literários, primeiramente, têm como objetivo de nos fazer conhecer os instrumentos do quais se servem. “Ler poemas e romances não conduz à reflexão sobre a condição humana, sobre o indivíduo e a sociedade, o amor e o ódio, a alegria e o desespero, mas sobre as noções críticas, tradicionais ou modernas. Na escola não aprendemos acerca do que falam as obras, mas sim do que falam os críticos. (...) O ensinar uma disciplina, a ênfase deve recair sobre a disciplina em si ou sobre seu objeto?” (TODOROV, página 27). O pleno sentido do estudo literário, segundo o autor, é a obra em sua essência. “Todos esses objetos de conhecimento são construções abstratas, conceitos forjados pela análise literária, a fim de abordar as obras; nenhum diz respeito ao que falam as obras em si, seu sentido, o mundo que elas evocam. Em sua aula, na maior parte do tempo, o professor de literatura não pode se resumir a ensinar, como lhe pedem as instruções oficiais, os gêneros e os registros, as modalidades de significação e os efeitos da argumentação, a metáfora e a metonímia, a focalização interna e externa etc” (TODOROV, página 28).  Nota-se sua intenção em um estudo da literatura capaz de conduzir a um objeto exterior (o mundo), em contraposição a busca da construção arcaica da disciplina. As teorias a respeito das obras sobrepõem-se à abordagem da própria obra. Todorov não tira a importância da análise estruturalista, apenas coloca-a em seu devido lugar. “Pode ser útil ao aluno aprender os fatos da história literária ou alguns princípios resultantes da análise estrutural. Entretanto, em nenhum caso o estudo desses meios de acesso pode substituir o sentido da obra, que é o seu fim. Para erguer um prédio é necessária a montagem de andaimes, mas não se deve substituir o primeiro pelos segundos. (...) As inovações trazidas pela abordagem estrutural (...) são bem-vindas com a condição de manter sua função de instrumentos, em lugar de se tornarem seu objetivo próprio. (...) Os ganhos da análise estrutural, ao lado de outros, podem ajudar a compreender melhor o sentido de uma obra. É preciso ir além. Não apenas estudamos mal o sentido de um texto se nos atemos a uma abordagem interna estrita, enquanto as obras existem dentro e em diálogo com um contexto; não apenas os meios não devem se tornar o fim, nem a técnica nos deve fazer esquecer o objetivo do exercício” (TODOROV, páginas 31-32).&lt;br /&gt;Antes de tudo, lê-se a literatura por prazer, buscando a realização pessoal e um maior ordenamento e compreensão do homem e do mundo em si. É isso que gera o amor à mesma. Entendido isto, soma-se o uso de estruturas que auxiliem (e não ditem) sua análise. “O conhecimento da literatura não é um fim em si, mas uma das vias régias que conduzem à realização pessoal de cada um” (TODOROV, página 33).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além da escola&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ensino nas escolas nada mais é que um reflexo do mesmo nas universidades, conclui o autor. Esta tendência advém desde os anos de 1960/1970, sob a bandeira estruturalista. Principalmente na França, a explicação do texto era calcada a partir de um contexto histórico e nacional. “Antes de se interrogarem longamente sobre o sentido das obras, os doutorandos preparavam um inventário exaustivo acerca de tudo que as cercava: biografia do autor, protótipos possíveis das personagens, variantes da obra, além das reações provocadas por ela em seu tempo. (...) A meu ver, tanto hoje quanto naquela época, a abordagem interna (estudo das relações dos elementos da obra entre si) devia completar a abordagem externa (estudo do contexto histórico, ideológico, estético). O aumento da precisão dos instrumentos de análise permitia estudos mais agudos e rigorosos; o objetivo último, porém, permanecia a compreensão do sentido das obras” (TODOROV, página 36). Em outro estudo seu, antecedente a este livro, Tzvetan Todorov diz que “a desvantagem desse tipo de trabalho é, digamos, sua modéstia, o fato de não ir longe o suficiente, não passando de um estudo preliminar, que consiste precisamente em constatar e identificar as categorias em jogo no texto literário, e não a nos falar do sentido do texto” .&lt;br /&gt;Depois de maio de 1968 as estruturas universitárias e as hierarquias até então existentes modificaram-se profundamente, no entanto, não houve um equilíbrio, rumando-se assim ao extremo oposto: passou-se a prevalecer as abordagens internas e as categorias da teoria literária (embora esta mutação não possa ser considerada causa exclusiva da influência do estruturalismo). Até este momento, valorizava-se o estudo das causas sociais que conduzissem o surgimento da obra, as forças (sociais, políticas, ideológicas, entre outras) que direcionassem o texto literário, inclusive seu impacto no público. “A preferência, assim, era concedida à inserção da obra literária numa cadeia causal. (...) Esse estudo era criticado por nunca poder se tornar científico o bastante, sendo então abandonado a outros comentadores, desvalorizados, a escritores ou a críticos de jornais. A tradição universitária não concebia a literatura como a encarnação de um pensamento e de uma sensibilidade, tampouco como interpretação do mundo” (TODOROV, página 38). A partir da ruptura estruturalista, “a obra impõe o advento de uma ordem em estado de ruptura com o existente, a afirmação de um reino que obedece a suas leis e lógicas próprias”  , ou seja, a obra literária passa a ser representada como um objeto de linguagem fechada, auto-suficiente, absoluta em si. Isso refletiu no ensino da literatura no ensino médio (a literatura não teria relações com o restante do mundo, passíveis seriam as relações dos elementos da obra entre si), o que agravaria o desinteresse dos estudantes pelo texto literário em geral.&lt;br /&gt;Da corrente estruturalista de análise origina-se uma variante. “Diversamente do estruturalismo clássico, que afastava a questão da verdade dos textos, o pós-estruturalismo quer de fato examinar essa questão, mas seu comentário invariável é que ela nunca receberá qualquer resposta. O texto só pode dizer uma única verdade, a saber: que a verdade não existe ou que ela se mantém sempre inacessível” (TODOROV, página 40). Quase como o behaviorismo em relação ao acesso ao inconsciente. Ao analisar o ensino da literatura no ensino médio, Todorov não mede palavras pala classificar o mesmo como promotor de uma “concepção redutora da literatura” (TODOROV, página 41). Tais fatos atentam para outro ponto crucial: o de que muitos escritores na verdade esperariam por elogios da crítica literária (o que ditaria um rumo artificial da sua obra, como algo pré-moldado segundo tendências e influências). “Numerosa obras contemporâneas ilustram essa concepção formalista da literatura; elas cultivam a construção engenhosa, os processos mecânicos (grifo meu) de engrendamento do texto, os ecos e os pequenos sinais cúmplices. (...) Outra tendência influente encarna uma visão de mundo que poderíamos qualificar de niilista, segundo a qual os homens são tolos e perversos, as destruições e as formas de violência dizem a verdade da condição humana, e a vida é o advento de um desastre. Não se pode mais, nesse caso, afirmar que a literatura não descreve o mundo: mais do que uma negação da representação, ela se torna a representação de uma negação. O que não a impede de permanecer como objeto de uma crítica formalista: já que, para essa crítica, o universo representado no livro é auto-suficiente, sem relação com o mundo exterior, abrem-se as portas para sua análise sem que se tenha de interrogar sobre a pertinência das opiniões expressas no livro, nem sobre a veracidade do quadro que ele pinta. A história da literatura o mostra bem: passa-se facilmente do formalismo ao niilismo ou vice-versa, e podem-se mesmo cultivar os dois simultaneamente. (...) Outra prática literária provém, com efeito, de uma atitude complacente e narcisística que leva o autor a descrever detalhadamente suas menores emoções, suas mais insignificantes experiências sexuais, suas reminescências mais fúteis: quanto mais repugnante, mais fascinante é o mundo! Falar mal de si, aliás, não destrói esse prazer, já que o essencial é falar de si – o que se diz é secundário. A literatura (nesse caso, diz-se preferencialmente, a ‘escrita’) tornou-se apenas um laboratório no qual o autor pode estudar a si mesmo a seu bel-prazer e tentar se compreender. É possível qualificar essa terceira tendência, após as do formalismo e do niilismo, de solipsismo, de acordo com essa teoria filosófica que postula que o si mesmo é o único ser existente. A falta de verossimilhança dessa teoria, de fato, a condena à marginalidade, mas isso não impede que ela se torne um programa de criação literária” (TODOROV, páginas 42-43).&lt;br /&gt;Desta maneira, “niilismo e solipsismo são claramente solidários. Ambos repousam na idéia de que uma ruptura radical separa o eu e o mundo, isto é, de que não existe mundo comum. (...) o niilismo omite a inclusão de um lugar para si mesmo e para os que lhe são semelhantes no quadro de desolação por ele pintado; o solipsismo negligencia a representação do contexto humano e material que o torna possível. Niilismo e solipsismo mais completam a escolha formalista do que a refutam: a cada vez, mas a partir de modalidades diferentes, é o mundo exterior, o mundo comum a mim e aos outros, que é negado e depreciado. (...) A criação contemporânea francesa é solidária da idéia da literatura que se pode encontrar na base do ensino e da crítica: uma idéia absurdamente restrita e empobrecida” (TODOROV, página 44). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascimento da estética moderna&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autor enumera etapas para melhor compreender a tese segundo a qual a literatura não mantém ligação significativa com o mundo (e que, por conseguinte, sua apreciação não deve levar em conta o que ela nos diz do mundo). Numa visão clássica, a poesia caracteriza-se por agradar e instruir, ao mesmo tempo em que é uma imitação da natureza. Visto isso, sua “relação com o mundo encontra-se, assim, tanto do lado do autor, que deve conhecer as realidades do mundo para poder imitá-las, quanto do lado dos leitores e ouvintes, que podem, é claro, encontrar prazer nessas realidades, mas que delas também tiram lições aplicáveis ao restante de sua existência. (...) A partir do Renascimento, pede-se à poesia que seja bela, mas a própria beleza se define pela verdade e sua contribuição ao bem” (TODOROV, página 46).&lt;br /&gt;A modernidade abala essa concepção. Primeiro, “consiste em retomar e revalorizar uma antiga imagem: o artista criador, comparável ao Deus criador, engrenda conjuntos coerentes e fechados e si mesmos. O Deus do monoteísmo é um ser infinito que produz um universo finito; ao imitá-lo, o poeta se assemelha ao deus que fabrica objetos finitos” (TODOROV, páginas 46-47). Exige-se coerência nas criações, não uma correspondência qualquer da obra com algo que ela não é. “O poeta ilustra essas categorias, já que cria um mundo paralelo ao mundo físico existente, um universo tão independente quanto coerente” (TODOROV, página 47). No segundo caso, consiste-se em dizer que o objetivo da poesia não é imitar a natureza, muito menos instruir e agradar, mas produzir o belo. “O belo se caracteriza pelo fato de não conduzir a nada que esteja para além de si mesmo. (...) Não é mais o criador que, em sua liberdade, se aproxima de Deus; é a obra em sua perfeição” (TODOROV, página 48). Como resultado disso, nos séculos XVII e XVIII, o contemplar estético, o juízo de gosto e o sentido do belo passam a ser instituídos como entidades autônomas. “O que há de revolucionário nessa abordagem é que ela conduz ao abandono da perspectiva do criador para adotar a do receptor, que, por sua vez, só tem um único interesse: contemplar belos objetos. (...) Visto a partir da perspectiva da criação ou da fabricação, o artista é apenas um artesão de melhor qualidade: os dois praticam o mesmo ofício, com um pouco mais ou um pouco menos de talento. Ora, se nos situamos do lado de seus produtos, o artesão se opõe ao artista, pois, se um cria objetos utilitários, o outro cria objetos a serem contemplados apenas pelo prazer estético proporcionado; um obedece a seu interesse, e o outro permanece desinteressado; um se situa sob a lógica do usar, e o outro na do fruir; e, por fim, um permanece puramente humano, e o outro se aproxima do divino” (TODOROV, página 50). Assim, nota-se que as artes exigem um local em que podem ser consumidas (museus, galerias, etc), o que caracteriza o objetivo único de serem contempladas e apreciadas por seu valor estético.&lt;br /&gt;“Os dois movimentos que transformam no século XVIII a concepção de arte, isto é, a assimilação do criador a um deus fabricante do microcosmo e a assimilação da obra a um objeto de contemplação, ilustram a progressiva secularização do mundo na Europa ao mesmo tempo em que contribuem para uma nova sacralização da arte. Nesse momento da história, a arte encarna tanto a liberdade do criador como a sua soberania, sua auto-suficiência e sua transcendência com relação ao mundo. (...) A ausência de finalidade externa é, de algum modo, compensada pela densidade das finalidades internas, ou seja, pelas relações entre as partes e os elementos da obra” (TODOROV, página 52). Assim, há uma maior significação e potencial de análise da obra quando vista através do prisma interno (caracteres externos de formação da mesma são ignorados).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estética das Luzes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a deteriorização do mecenato, o artista destina suas obras ao público que as adquire: é o público que passa a ter as chaves do seu sucesso. O que se reservava a poucos, agora torna-se acessível a todos. Põem-se em pé de igualdade todos os consumidores. “O espírito das Luzes é o da autonomia do indivíduo; a arte que conquista sua autonomia participa do mesmo movimento” (TODOROV, página 53). “O que é belo é harmonioso e proporcional. O que é harmonioso e proporcional é verdadeiro, e o que é ao mesmo tempo belo e verdadeiro é, por conseguinte, agradável e bom. O processo de percepção e a ação dos sentidos não esgotam a experiência dita estética, e menos ainda porque a arte considerada habitualmente como exemplar, a poesia, não é em sua essência relativa à visão nem à audição, mas exige a mobilização do espírito: a beleza da poesia sustenta-se em seu sentido e não pode ser separada da verdade. Esses pensadores não renunciam, portanto, a ler as obras literárias como um discurso sobre o mundo, mas procuram, especialmente, distinguir entre duas vias, a dos poetas e a dos cientistas (ou filósofos), cada uma delas com suas vantagens, sem que uma seja inferior à outra: duas vias que conduzem ao mesmo objetivo, uma melhor compreensão do homem e do mundo, uma sabedoria mais ampla” (TODOROV, páginas 54-55). O poeta é, assim, concebido como o criador de um mundo possível entre outros (legitimando a perspectiva estética, privilegiando a percepção em detrimento da criação). Desta maneira, a verdade à que conduz é de natureza diversa daquela das ciências, “(...) O nome que lhe convém é o de ‘verossimilhança’, e seu efeito é ‘produzido pela coerência interna do mundo criado’. A abstração apreende o geral ao custo, porém, de um empobrecimento do mundo sensível; a poesia capta sua riqueza, mesmo que as conclusões às quais chega careçam de clareza; o que ela perde em acuidade, ganha em vivacidade” (TODOROV, página 56).&lt;br /&gt;O grande autor do iluminismo alemão, Lessing, diz que a especificidade da obra de arte é produzir o belo, e este se define como uma harmonia de seus elementos constitutivos sem submissão a um objeto exterior. Por outro lado, “a obra participa de um conjunto mais amplo de práticas que têm como objetivo buscar a verdade do mundo e de conduzir os homens em direção à sabedoria” (TODOROV, página 56). Assim, o autor alemão não renuncia a alocar a arte no centro das atividades representativas (“essa imitação que é a essência da arte do poeta”, ele escreve). O escritor criaria um mundo coerente, porém autônomo e a obra, de uma forma ou de outra, acaba por escapar a seu autor. É bom lembrar, como já foi dito, que a verdade poética, no entanto, é diferente da do mundo científico, pois tem mais a ver com a verossimilhança. Não se trata de uma verdade puramente equivalente a uma realidade. “O belo não pode ser estabelecido objetivamente, uma vez que provém de um juízo de gosto e reside, portanto, na subjetividade dos leitores e espectadores; mas ele pode ser reconhecido pela harmonia dos elementos da obra e tornar-se objeto de consenso. (...) A arte pela arte, e sem objetivo; todo objetivo desnatura a arte. Mas a arte atinge o objetivo que não tem” (TODOROV, páginas 58 e 59). É notável que a obra venha a agir sobre o espírito do leitor, embora, “a instrução não será o objetivo, mas o efeito do quadro”  . Como o próprio Constant enfatiza, “a literatura refere-se a tudo. Não pode ser separada da política, da religião, da moral. É a expressão das opiniões dos homens sobre cada uma das coisas. Como tudo na natureza, ela é ao mesmo tempo efeito e causa. Imaginá-la como fenômeno isolado é não imaginá-la”  . Todorov complementa sua fala ao dizer que “poesia pura não existe: toda poesia é necessariamente impura, pois necessita de idéias e valores; ora, tanto um quanto outro não lhe pertencem propriamente” (TODOROV, página 60)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do Romantismo às vanguardas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estética iluminista deslocara o centro da gravidade da imitação à beleza, afirmando assim a autonomia da obra de arte. Porém, esta estética não ignora as relações que ligam as obras ao real. Visto isso, é notável destacar que a estética romântica, imposta a partir do início do século XIX, não introduz nenhuma ruptura exorbitante. “Deve ser lembrado, no entanto, que é nesse mesmo momento que o prestígio da ciência começa a crescer vertiginosamente; é sem surpresa que se vê a reivindicação romântica não encontrar nenhum eco favorável na sociedade contemporânea” (TODOROV, página 62).  Como o próprio Baudelaire instigava, a poesia não se submeteria à procura da verdade ou do bem, já que é detentora de uma verdade e de um bem superiores àqueles que podemos encontrar fora dela (em frase sua, “a imaginação é a mais científica das faculdades porque apenas ela pode compreender a analogia universal”). Assim, a arte e a poesia não deixam de ter algo a ver com a verdade, mas esta não tem a mesma natureza que aquela inspirada pela ciência. “(...) Uma relação se estabelece entre as palavras e o mundo, mas as duas verdades não se confundem” (TODOROV, página 64). O copiar e o interpretar encontram-se assim em campos opostos. “Trata-se aqui de uma verdade de correspondência ou de adequação. (...) A própria beleza não é uma noção nem objetiva (que possa ser estabelecida a partir de indícios materiais) nem subjetiva, ou seja, que dependa do juízo arbitrário de cada um; ela é inter-subjetiva, pertencente, portanto, à comunidade humana” (TODOROV, páginas 64-65).&lt;br /&gt;“A função da literatura é criar, partindo do material bruto da existência real, um mundo novo que será maravilhoso, mais durável e mais verdadeiro do que o mundo visto pelos olhos do vulgo. Ora, criar um mundo mais verdadeiro implica que a arte não rompe sua relação com o mundo” (TODOROV, página 66). Assim ela é: autônoma, ao mesmo tempo que dependente do cenário que a cerca, do mundo em si.&lt;br /&gt;No começo do século XX nota-se uma ruptura. A partir de então, a pretensão da literatura ao conhecimento não deixa de ser legítima (e os discursos da filosofia e da ciência vêem-se marcados pela mesma suspeita). “Desse momento em diante, cava-se um abismo entre a literatura de massa, produção popular em conexão direta com a vida cotidiana de seus leitores, e a literatura de elite, lida pelos profissionais – críticos, professores e escritores – que se interessam somente pelas proezas técnicas de seus criadores. De um lado, o sucesso comercial; do outro, as qualidades puramente artísticas. Tudo se passa como se a incompatibilidade entre as duas fosse evidente por si só, a ponto de a acolhida favorável reservada a um livro por um grande número de leitores tornar-se o sinal de seu fracasso no plano da arte, o que provoca o desprezo ou o silêncio da crítica” (TODOROV, página 67)&lt;br /&gt;Com as vanguardas, advém uma nova concepção da arte em si. Tal movimento se manifesta pela primeira vez na Rússia, em 1910, e trata-se do início da abstração na pintura e das invenções futuristas na poesia. Assim, esquece-se o mundo material, a arte agora obedece às suas próprias leis. “Como conseqüência, o mundo fenomenal, o mundo acessível aos olhos de todos deixa de ser levado em consideração. (...) A intersubjetividade, que repousa na existência de um mundo comum e de um sentido comum, dá lugar à pura manifestação do indivíduo” (TODOROV, páginas 68-69).&lt;br /&gt;“Nos regimes totalitários instalados no pós-guerra, (...) há a preocupação de colocar a arte a serviço de um projeto utópico, o da fabricação de uma sociedade inteiramente nova e de um homem novo. O realismo socialista, a arte do ‘povo’ e a literatura de propaganda ideológica exigem a manutenção de uma relação de força com a realidade circundante e, sobretudo, também impõem a submissão aos objetivos políticos do momento, o que se mostra diametralmente oposto a toda proclamação de autonomia artística e a toda procura solitária do belo. A arte deve, como exige a estética clássica, agradar (um pouco), mas sobretudo, instruir. Muitos artistas virão responder com tanto entusiasmo e com tanta adesão a essa questão, que eles próprios passarão a chamá-la de a revolução dos seus anseios. Ao mesmo tempo, mas em locais onde reina a liberdade de expressão, inicia-se um combate a essa usurpação da autonomia do indivíduo, afirmando-se que a arte e a literatura não mantém nenhuma ligação significativa com o mundo. (...) Tudo se passa como se a recusa em ver a arte e a literatura subjugadas à ideologia acarretasse necessariamente a ruptura definitiva entre a literatura e o pensamento; como se a rejeição das teorias marxistas do “reflexo” exigisse o desaparecimento de toda relação entre a obra e o mundo. Ao utopismo de uns corresponde o formalismo dos outros” (TODOROV, páginas 69-70). Nos dias atuais, a sociedade caracteriza-se pela coexistência mais ou menos pacífica tanto de ideologias diferentes quanto de concepções concorrentes da arte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que pode a literatura?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um livro pode expressar muito bem os sentimentos do leitor que o usufrui. Os personagens se tornam mais importantes que os de carne e osso encontrados no dia-a-dia, visto que são inesgotáveis em suas possibilidades. “A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. Não que ela seja, antes de tudo, uma técnica de cuidados para com a alma; porém, revelação do mundo, ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro. A literatura tem uma papel vital a cumprir; mas por isso é preciso tomá-la no sentido amplo e intenso que prevaleceu na Europa até fins do século XIX e que hoje é marginalizado, quando triunfa uma concepção absurdamente reduzida do literário. O leitor comum, que continua a procurar nas obras que lê aquilo que pode dar sentido à sua vida, tem razão contra professores, críticos e escritores que lhe dizem que a literatura só fala de si mesma ou que apenas pode ensinar o desespero. Se esse leitor não tivesse razão, a leitura estaria condenada a desaparecer num curto prazo. (...) A literatura é pensamento e conhecimento do mundo psíquico e social em que vivemos. A realidade que a literatura aspira compreender é, simplesmente (mas, ao mesmo tempo, nada é assim tão complexo), a experiência humana. Nesse sentido, pode-se dizer que Dante ou Cervantes nos ensinam tanto sobre a condição humana quanto os maiores sociólogos e psicólogos e que não há incompatibilidade entre o primeiro saber e o segundo” (TODOROV, páginas 76-77). Desta maneira, a literatura nos faz viver experiências singulares. “O escritor não faz a imposição de uma tese, mas incita o leitor a formulá-la: em vez de impor, ele propõe, deixando, portanto, seu leitor livre ao mesmo tempo em que o incita a se tornar mais ativo” (TODOROV, página 78). A obra literária produz um tremor de sentimentos, abalando o aparelho da interpretação simbólica, despertando assim a capacidade de associação que continuam muito tempo após o contato inicial (elemento este que o leitor do texto científico não encontra).&lt;br /&gt;A literatura contribui assim para nossa compreensão do mundo. A leitura de romances nos possibilita contatos com personagens, analisando suas ações e dizeres, interpretando-os. “Conhecer novas personagens é como encontrar novas pessoas, com a diferença de que podemos descobri-las interiormente de imediato, pois cada ação tem o ponto de vista do seu autor. Quanto menos essas personagens se parecem conosco, mais elas ampliam nosso horizonte, enriquecendo assim nosso universo. (...) O que o romance nos dá não é um novo saber, mas uma nova capacidade de comunicação com seres diferentes de nós; nesse sentido eles participam mais da moral do que da ciência” (TODOROV, páginas 80-81). O autor quer que se aceite a forte relação da literatura com o mundo, assim como a contribuição da mesma para a formação moral do indivíduo. Fechando o capítulo, Todorov complementa que “é por isso que devemos encorajar a leitura por todos os meios – inclusive a dos livros que o crítico profissional considera como condescendência, se não com desprezo, desde Os Três Mosqueteiros até Harry Potter: não apenas esses romances populares levaram ao hábito da leitura milhões de adolescentes, mas, sobretudo, lhes possibilitaram a construção de uma primeira imagem coerente do mundo, que, podemos nos assegurar, as leituras posteriores se encarregarão de tornar mais complexas e nuançadas” (TODOROV, página 82).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma comunicação inesgotável&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A veracidade seria a única exigência legítima a se fazer à literatura. Que se submeta a verdade ou a moral? É necessário primeiro alocar o escritor na sua própria obra, além de averiguar a natureza da verdade à qual ela ascende. Assim, uma preocupação com a verdade resultará necessariamente em um efeito moral (não se trata de uma moral puramente exposta, mas percebida, e assim possa ser aceita ou rejeitada). Se isso não ocorre, das duas uma: ou o livro é muito ruim ou o leitor é um imbecil. “O objetivo da literatura é representar a existência humana, mas a humanidade inclui também o autor e o seu leitor. ‘Você não pode se abstrair dessa contemplação; pois o homem é você, e os homens são o leitor. Por mais que faça, sua narrativa sempre será uma conversa entre você e esse leitor’. A narrativa está necessariamente inserida num diálogo do qual os homens não são apenas o objeto, mas também os protagonistas” (TODOROV, página 86). Não se procura algo durante a leitura, simplesmente se acha algo que identifique o leitor à obra que lê, tendo como conseqüência uma visão mais definitiva e ampla da vida em geral. “A verdadeira realidade é uma mistura de beleza e feiúra, de palidez e luminosidade. Assim, aqueles que num certo momento foram chamados de realistas fizeram uma escolha que trai a realidade: eles obedecem a uma convenção arbitrária que lhes exige representar unicamente a face negra do mundo” (TODOROV, página 87).&lt;br /&gt;A literatura anseia, sobretudo, por uma forma de verdade, no entanto, debates são construídos ao redor da veracidade destas narrativas. O que é certo é que a obra literária transforma o ser de cada um dos seus leitores a partir de seu interior. Isto liberta a literatura do espartilho asfixiante que a prende, percorrer-se-iam assim horizontes mais amplos, retirando-a do gueto formalista que interessa apenas aos críticos, proporcionando à obra literária em si a abertura para o grande debate de idéias do qual participa todo conhecimento do homem. Concluindo a problemática anteriormente apresentada, “a análise das obras feitas na escola não deveria mais ter por objetivo ilustrar os conceitos recém-introduzidos por este ou aquele lingüista, este ou aquele teórico da literatura, quando, então, os textos são apresentados como uma aplicação da língua e do discurso; sua tarefa deveria ser a de nos fazer ter acesso ao sentido dessas obras – pois postulamos que esse sentido, por sua vez, nos conduz a um conhecimento do humano, o qual importa a todos” (TODOROV, página 89).&lt;br /&gt;“O estudo da obra remete a círculos concêntricos cada vez mais amplos: o dos outros escritos do mesmo autor, o da literatura nacional, o da literatura mundial; mas seu contexto final, o mais importante de todos, nos é efetivamente dado pela própria existência humana. Todas as grandes obras, qualquer que seja a sua origem, demandam uma reflexão dessa dimensão. O que devemos fazer para desdobrar o sentido de uma obra e revelar o pensamento do artista? Todos os ‘métodos’ são bons, desde que continuem a ser meios, em vez de se tornarem fins em si mesmos. (...) Aquilo de que nos damos conta, gradualmente, é que todas as perspectivas de um texto, longe de serem rivais, são complementares – desde que se admita de início que o escritor é aquele que observa e compreende o mundo em que vive” (TODOROV, página 91). &lt;br /&gt;Todorov prega o entendimento da literatura de uma maneira ampla e, embora se reconheçam as virtudes das obras literárias, não é certo que a verdadeira vida é a literatura ou que tudo no mundo existe para se conduzir a um livro. “Sendo o objeto da literatura a própria condição humana, aquele que a lê e a compreende se tornará não um especialista em análise literária, mas um conhecedor do ser humano” (TODOROV, páginas 92-93).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-4400595722574960759?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/4400595722574960759/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=4400595722574960759' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/4400595722574960759'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/4400595722574960759'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2009/07/todorov-tzvetan-fichamento-literatura.html' title='Fichamento: TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-109740863604307749</id><published>2009-07-13T00:47:00.003-03:00</published><updated>2009-07-14T16:11:47.805-03:00</updated><title type='text'>CANDIDO, Antônio. Literatura e Sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2006. pp. 13-49.</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Crítica e Sociologia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autor Antônio Cândido preza por uma análise sistemática acerca da contribuição das ciências sociais para com o estudo literário, não esquecendo de atribuir importância à crítica literária pura e simples. O que se deve buscar, segundo ele, é “(...) que se efetue a operação difícil de chegar a um ponto de vista objetivo, sem desfigurá-la de um lado nem de outro” (CANDIDO, página 13). Defende uma complementaridade entre as divergentes áreas, analisando o vínculo entre a obra e o ambiente, não deixando de lado a análise estética do relato literário. “O externo (no caso, o social) importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se assim, interno” (CANDIDO, página 14).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que importa é uma abordagem que encare a obra literária como um conjunto de fatores sociais que atuem sobre a formação da mesma (além da influência que a mesma exerce no meio social a que pertence, depois de concluída e divulgada). O fator social não disponibiliza apenas as matérias, mas também atua na constituição do que há de essencial na obra enquanto obra de arte. Deve-se perceber a literatura como um todo indissolúvel, fruto de um tecido formado por características sociais distintas, porém complementares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apontar as dimensões sociais de um livro (referências a lugares, datas, manifestações de determinados grupos sociais presentes na estória, etc) é tarefa de rotina, não bastando assim para definir um caráter sociológico de estudo. Deve-se partir de uma análise das relações sociais, para aí sim compreendê-las e estudá-las em um nível sociológico mais profundo, levando-se em conta a estrutura formada no livro. Diz o autor: “Quando fazemos uma análise desse tipo, podemos dizer que levamos em conta o elemento social, não exteriormente, como referência que permite identificar, na matéria do livro, a expressão de uma certa época ou de uma sociedade determinada; nem como enquadramento, que permite situá-lo historicamente; mas como fator da própria construção artística, estudado no nível explicativo e não ilustrativo” (CANDIDO, páginas 16 e 17). Não é a literatura por ela mesma, mas pelo social. Assim, pode-se sair de uma análise sociológica periférica e sem fundamentos, não se limitando a uma referência à história sociologicamente orientada. Tudo faz parte de um “fermento orgânico” (CANDIDO, página 17), onde a diversidade se torna coesa e possibilita um estudo mais aprofundado e estruturado em bases históricas, sociológicas e críticas. Segundo esta ótica, o ângulo sociológico adquire uma real validade científica (inserida em um contexto social real). “Uma crítica que se queira integral deixará de ser unilateralmente sociológica, psicológica ou lingüística, para utilizar livremente os elementos capazes de conduzirem a uma interpretação coerente. Mas nada impede que cada crítico ressalte o elemento da sua preferência, desde que o utilize como componente da estruturação da obra” (CANDIDO, página 17). Tende-se assim a uma pesquisa mais concreta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antônio Cândido atenta também para um perigo comum, que seria o fato de muitos estudiosos atribuírem integridade e autonomia às obras que estudam além dos limites cabíveis, resultando assim em uma maior interiorização da obra (a obra por ela mesmo e nada mais), fazendo com que, por exemplo, fatores históricos entrassem e detrimento na pesquisa. Em suma, o autor carioca diz que “(...) convém evitar novos dogmatismos” (CANDIDO, página 18), e que não podemos “dispensar nem menosprezar disciplinas interdependentes como a sociologia da literatura e a história literária sociologicamente orientada, bem como toda a gama de estudos aplicados à investigação de aspectos sociais das obras” (CANDIDO, página 18).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autor enumera seis modalidades de estudos do tipo sociológico no campo literário, oscilando entre a sociologia , a história e a crítica de conteúdo:&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;1)&lt;/strong&gt; Relacionamento do conjunto de uma literatura (um período, um gênero) com as condições sociais. Esta abordagem metodológica tradicional seria oriunda do século XVIII. Teria, como virtude, mapear uma ordem geral, um arranjo. Como defeito, traria dificuldades em mostrar a ligação entre as condições sociais e as obras. “(...) Como resultado decepcionante, uma composição paralela, em que o estudioso enumera os fatores (...), e em seguida fala das obras segundo as suas intuições ou os seus preconceitos herdados, incapaz de vincular as duas ordens de realidade” (CANDIDO, página 19).&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2)&lt;/strong&gt; Verificar a medida em que as obras espelham ou representam a sociedade, descrevendo seus vários aspectos. Seria a modalidade mais comum, consistindo em estabelecer correlações entre os aspectos reais e os que aparecem nos livros.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;3)&lt;/strong&gt; Análise de cunho estritamente sociológico, consistindo no estudo da relação entre a obra e o público (isto é, o seu destino, a sua aceitação, a ação recíproca de ambos). Exploraria a função da literatura junto aos leitores, mediante a aceitação, ou não, da mesma.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;4)&lt;/strong&gt; Estudo da posição e função social do escritor, procurando relações entre sua posição e a natureza de sua produção literária, e ambas com a organização da sociedade. Nada mais é que a análise da situação e do papel destes intelectuais na formação da sociedade.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;5)&lt;/strong&gt; Investigação da função política das obras e dos autores (em geral, atenderia a intuitos ideológicos previamente determinados).&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;6)&lt;/strong&gt; Investigação hipotética das origens, buscando uma essência particular (seja da literatura em geral, ou de determinados gêneros).&lt;br /&gt;Cada tipo de abordagem decai sobre um ângulo específico. Segundo Antônio Cândido, acerca das escolhas metodológicas sociais a se trabalhar a literatura, “em todas nota-se o deslocamento da obra para os elementos sociais que formam a sua matéria, para as circunstâncias do meio que influíram na sua elaboração, ou para a sua função na sociedade” (CANDIDO, página 21). Não se nega o entrelaçamento de diversos fatores sociais nas obras literárias, mas, determinar se estes interferem diretamente nas características essenciais de determinada obra pode levar alguns estudiosos a um abismo difícil de se transpor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autor converge em opinião com o argumento de Adriana Facina ao dizer: “O primeiro passo (que apesar de óbvio dever ser assinalado) é ter consciência da relação arbitrária e deformante que o trabalho artístico estabelece com a realidade, mesmo quando pretende observá-la e transpô-la rigorosamente” (CANDIDO, página 22). O autor defende e justifica esse caráter distorcido da literatura ao afirmar que “esta liberdade, mesmo dentro da orientação documentária, é o quinhão da fantasia, que às vezes precisa modificar a ordem para torná-la mais expressiva de tal maneira que o sentimento da verdade se constitui no leitor graças a esta traição metódica. Tal paradoxo está no cerne do trabalho literário e garante a sua eficácia como representação do mundo. Achar, pois, que basta aferir a obra com a realidade exterior para entendê-la é correr o risco de uma perigosa simplificação causal” (CANDIDO, página 22). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;3&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O social passa por um processo de interiorização em que o autor o reconstrói, elaborando-o de uma maneira estética diferenciada (não deixando de ser subjetiva e arbitrária). Determinadas visões específicas são o que delineiam a construção estética de um livro. Ainda, a “a criação, não obstante singular e autônoma, decorre de uma certa visão do mundo, que é fenômeno coletivo na medida em que foi elaborada por uma classe social, segundo o seu ângulo ideológico próprio” (CANDIDO, página 23). Desta forma, a hipótese primordial do autor é que há a invocação do fator social como um meio de explicação e estruturação da obra e de seu teor de idéias, fornecendo-lhe elementos para determinar a sua validade e o seu efeito sobre as massas leitoras que os absorvem. Porém, isto não se simplifica à mera dicotomia entre fatores internos e externos. “(...) Os elementos de ordem social serão filtrados através de uma concepção estética e trazidos ao nível da fatura, para entender a singularidade e a autonomia da obra” (CANDIDO, página 24). A obra pura e simples não significa um todo que se explica a si mesma, como um universo fechado (a obra é orgânica sim, mas não totalmente isolada do mundo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A literatura e a vida social&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta parte de seu ensaio, o autor relativiza a contribuição das ciências socias ao estudo literário. “Do século passado aos nossos dias, este gênero de estudos tem permanecido insatisfatório, ou ao menos incompleto, devido à falta de um sistema coerente de referência, isto é, um conjunto de formulações e conceitos que permitam limitar objetivamente o campo de análise e escapar, tanto quanto possível, ao arbítrio dos pontos de vista. Não espanta, pois, que a aplicação das ciências sociais ao estudo da arte tenha tido conseqüências freqüentemente duvidosas, propiciando relações difíceis no terreno do método. Com efeito, sociólogos, psicólogos e outros manifestam às vezes intuitos imperialistas, tendo havido momentos em que julgaram poder explicar apenas com os recursos das suas disciplinas a totalidade do fenômeno artístico. Assim, problemas que desafiavam gerações de filósofos e críticos pareceram de repente facilmente solúveis, graças a um simplismo que não raro levou ao descrédito as orientações sociológicas e psicológicas, como instrumentos de interpretação do fato literário” (CANDIDO, página 27).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poeta e escritor transformam tudo que passa por eles, combinado a realidade que absorvem com a própria percepção, devolvendo assim ao mundo uma interpretação própria e subjetiva, longe de ser um mero espelho refletor. Assim, deve-se pensar a influência exercida pelo meio social sobre a obra de arte, assim como a influência que a própria obra exerce sobre o meio.  A arte pode então, ser uma expressão da sociedade, não deixando de se considerar o teor de seu aspecto social, ou seja, o quanto ela está interessada nos problemas sociais. A partir do século XVIII, a literatura passa a ser também um produto social, já que expressa condições de cada civilização em que se forma. Chegou-se até a pensar até que medida a arte expressa a realidade, já que descreve modos de vida e interesses de determinadas classes, não satisfazendo assim uma interpretação plena da sociedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A análise do conteúdo social de uma obra segue mais como uma afirmação de princípios do que uma hipótese de investigação, já que um desenrolar negativo desta perspectiva de pesquisa sugere a uma condenação destas obras que não corresponderiam aos valores de suas respectivas ideologias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No geral, a arte é social nos dois sentidos: tanto receptiva quanto expressiva (isto não ocorrendo de maneira tão ativa, muito menos ainda passiva). Como diz o autor: “(...) depende da ação de fatores do meio, que se exprimem na obra em graus diversos de sublimação; e produz sobre os indivíduos um efeito prático, modificando a sua conduta e concepção do mundo, ou reforçando neles o sentimento dos valores sociais” (CANDIDO, página 30). Um método de pesquisa mais apropriado investir-se-ia na análise das influências reais exercidas pelos fatores socioculturais.  Vários aspectos podem ser considerados neste processo, como por exemplo: a posição social do artista, a configuração dos grupos receptores, a forma e conteúdo da obra, a fatura da mesma e sua transmissão, entre outros. Antônio Candido aponta para “quatro momentos da produção, pois: a) o artista, sob o impulso de uma necessidade interior, orienta-se segundo os padrões da sua época, b)escolhe certos temas, c) usa certas formas e d) a síntese resultante age sobre o meio” (CANDIDO, página 31).&lt;br /&gt;A arte pressupõe algo mais amplo que as vivências do artista, apesar dele se equipar com um arsenal oriundo da própria civilização para tematizar e formar sua obra, moldando-a sempre a um público alvo. O autor faz uma distinção categórica entre arte de agregação e arte de segregação. “A primeira se inspira principalmente na experiência coletiva e visa os meios comunicativos acessíveis. Procura, neste sentido, incorporar-se a um sistema simbólico vigente, utilizando o que já está estabelecido como forma de expressão de determinada sociedade. A segunda se preocupa em renovar o sistema simbólico, criar novos recursos expressivos e, para isto, dirige-se a um número ao menos inicialmente reduzido de receptores, que se destacam, enquanto tais, da sociedade” (CANDIDO, página 33).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomando o autor, a obra e o público como os três principais elementos que fundamentam e possibilitam a comunicação artística, Antônio Cândido analisa como a sociedade define a posição e o papel do artista, como a obra depende de recursos técnicos para expor os valores propostos e, de que maneira se configuram os públicos. O link entre sociedade e arte não ocorre de maneira tão simples, trata-se sim de um viés de mão dupla. “A atividade do artista estimula a diferenciação de grupos; a criação de obras modifica os recursos de comunicação expressiva; as obras delimitam e organizam o público. Vendo os problemas sob esta dupla perspectiva, percebe-se o movimento dialético que engloba a arte e a sociedade num vasto sistema solidário de influências recíprocas” (CANDIDO, página 34).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;1) A posição do artista&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Averigua-se de que modo a posição social atribui um papel específico ao criador de arte. Isto envolve não apenas o artista individualmente, mas a formação de grupos de artistas. Há tempos que o caráter da criação rumava para uma imagem coletiva, concebendo ao povo, no conjunto, o verdadeiro criador da arte. “Hoje, está superada esta noção de cunho acentuadamente romântico, e sabemos que a obra exige necessariamente a presença do artista criador. O que chamamos arte coletiva é a arte criada pelo indivíduo a tal ponto identificado às aspirações e valores do seu tempo, que parece dissolver-se nele” (CANDIDO, página 34-35). Forças sociais condicionam a produção do artista, isto é fato, e “os elementos individuais adquirem significado social na medida em que as pessoas correspondem a necessidades coletivas. As relações entre o artista e o grupo resumem-se a um esquema simples: “em primeiro lugar, há necessidade de um agente individual que tome a si a tarefa de criar ou apresentar a obra; em segundo lugar, ele é ou não reconhecido como criador ou intérprete pela sociedade, e o destino da obra está ligada a esta circunstância; em terceiro lugar, ele utiliza a obra, assim marcada pela sociedade, como veículo de suas aspirações individuais mais profundas” (CANDIDO, página 35). A obra nasce da confluência da iniciativa individual com as condições sociais, o que levanta a questão de quais são os limites da autonomia criadora do artista, repensando assim sua função em meio a sociedade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A arte pressupõe um indivíduo que assuma a iniciativa da obra. “Em todo caso, a existência de artista realmente profissional, que vive da sua arte, dedicando-se apenas a ela, não é freqüente entre os primitivos e constitui, via da regra, desenvolvimento mais recente. (...) Nas sociedades modernas a autonomia da arte permite atribuir a qualidade de artista mesmo a quem a pratique ao lado de outras atividades” (CANDIDO, página 38). Uma vez reconhecidos como tais, os artistas podem vincular-se, formando grupos determinados pela técnica. “Esta é, em grau maior ou menor, pressuposto de toda arte, envolvendo uma série e fórmulas e modos de fazer que, uma vez estabelecidos, devem ser conservados e transmitidos” (CANDIDO, página 39). Tais grupos tendem a diferenciar-se funcionalmente conforme o tipo de hierarquia social predominante em sua sociedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2) A configuração da obra&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma obra só é realizada quando é configurada pelo artista e pelas condições sociais que determinam a sua posição. Valores sociais, ideologias e sistemas de comunicação transmudam-se na obra através do impulso de seu criador. “Os valores e ideologias contribuem principalmente para o conteúdo, enquanto as modalidades de comunicação influem mais na forma” (CANDIDO, página 40). Algo se transforma em elemento usufruído pela arte quando representa para um determinado grupo social algo singularmente prezado, o que garantiria assim certo impacto emocional. Um exemplo vem da fase bolchevista que, quando em ascendência, criou um tipo de romance coletivista, onde os protagonistas são substituídos pelo esforço anônimo das massas. Além dos valores, as técnicas de comunicação de que a sociedade dispõe influem na obra, em sua forma, e nas suas possibilidades de atuação no meio. A partir do momento em que a escrita triunfa como meio de comunicação, o panorama artístico se modifica drasticamente. “A poesia pura do nosso tempo esqueceu o auditor e visa principalmente a um leitor atento e reflexivo, capaz de viver no silêncio e na meditação o sentido do seu canto mudo” (CANDIDO, página 43).&lt;br /&gt;Além disso, deve-se destacar a influência decisiva do jornal sobre a literatura, criando gêneros novos (crônicas) ou modificando outros já existentes (como o romance, por exemplo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;3) O público&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Considerado pelo autor Antônio Candido como o alvo receptor da arte. Em sociedades primitivas era menos nítida a separação entre o artista e seu público. “O pequeno número de componentes da comunidade e o entrosamento íntimo das manifestações artísticas com os demais aspectos da vida social dão lugar seja a uma participação de todos na execução de um canto ou dança, seja à intervenção dum número maior de artistas, seja a uma tal conformidade do artista aos padrões e expectativas, que mal chega a se distinguir” (CANDIDO, página 44). Com o desenvolvimento das sociedades, artistas se distanciam de seu público, formando assim categorias diferentes, mas não menos conectadas quanto antes (só então pode-se falar em um público diferenciado, no sentido moderno). O artista direciona sua produção a um público, ao qual ele não conhece, mas que imagina, a uma “massa abstrata, ou virtual” (CANDIDO, página 45). Tal grupo exerce uma influência enorme sobre a produção que se vai originar por via do artista. Um exemplo são os autores que se ajustam às normas do romance comercial, tamanhos são seus desejos por fama e bens materiais (influência da indústria literária).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A técnica da escrita, também, fez com que um novo tipo de público se formasse, possuindo características próprias. Abre-se uma era onde predominam os públicos indiretos, de contatos secundários. “Mesmo quando pensamos ser nós mesmos, somos público, pertencemos a uma massa cujas reações obedecem a condicionantes do momento e do meio” (CANDIDO, página 46). A necessidade, insuspeitada por muitos, de aderir ao que nos parece distintivo de um grupo, seja ele majoritário ou minoritário, só acaba por reforçar esta nossa reação que se fixa no reconhecimento de um coletivo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-109740863604307749?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/109740863604307749/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=109740863604307749' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/109740863604307749'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/109740863604307749'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2009/07/candido-antonio-literatura-e-sociedade.html' title='CANDIDO, Antônio. Literatura e Sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2006. pp. 13-49.'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-6047283784601432402</id><published>2009-05-05T15:54:00.002-03:00</published><updated>2009-05-05T15:57:55.667-03:00</updated><title type='text'>Dois, um, nenhum</title><content type='html'>Imagina-te no seguinte caso cotidiano: enamoraste perdidamente por alguém. As pequenas ações do dia-a-dia passam a ganhar magnitudes fantasmagóricas ao lado dessa nova pessoa, tudo passa a ser diferente, até a própria noção do diferente. Parece que novas lentes foram sobrepostas sobre seus olhos, e aí então o mundo passou a ser visto de outra forma, muito mais sentimental, puro, límpido, perfeito. Até aí tudo bem, tal concepção é passível sem nem mesmo conhecermos alguém de fato. Podemos ter tais percepções apenas através de decisões, atitudes tomadas, nem é preciso um ser autônomo diferente para lhe fazer pensar de outra forma também diferenciada.&lt;br /&gt;    Então tudo toma um rumo próprio, adquirindo uma dinâmica maior que qualquer hipérbole, e você se vê em completa união com sua outra metade, ou assim você pensa, onde tudo o que se faça ocorre da maneira em que os dois estejam juntos, todos os momentos, mesmo que não estejam fisicamente próximos.&lt;br /&gt;    O grande erro de gostar compulsivamente de alguém está na forte impressão, talvez até na certeza, de que o amor é capaz de tornar duas pessoas em uma somente, e é neste momento que um sentimento pode dar origem a outro totalmente distinto, tão antônimo este que torna-se impossível, senão inimaginável. Amor pode muitas vezes se transformar, por mais incrível que pareça, em raiva, ódio. Acidentalmente é que se cai em amor, mas muitas vezes é propositalmente a maneira pela qual ele termina, pois o jeito como queremos guiá-lo torna-se artificial, e assim, inexistente e insípido.&lt;br /&gt;    A noção de que duas pessoas se completam ao extremo e se tornam uma só em alma é minada a partir do momento em que decisões tomadas não partem de você, mas de sua outra cara metade, mas oras, que se parece tanto contigo que até mesmo ocorreu uma mescla sentimental, inquestionável, que nunca é posta em dúvida ao longo daquele relacionamento bem sucedido até o presente e vívido momento. Aí se pára pra pensar e percebe-se que você não faria aquela escolha, que não diria aquela palavra, ou até mesmo que nunca fizesse aquele gesto, e assim, um após outro, dia após dia, o que estava unido começa a ganhar contornos de aversão e diferença, mas não aquela que valorize as características pessoais de cada um, e sim uma diferença que não dê espaço ao outro, que critique-o, impondo-lhe muitas vezes o que se imagina que seja o certo. Surge então um fascismo de amor.&lt;br /&gt;    A destruição então parte de nós mesmos, na tentativa de que nossas características sobressaiam à do companheiro, limitando-o, fazendo com que fique inativo, fazendo-o sentir tudo aquilo que você está sentido e que lhe agoniza por todos os momentos. Então paro e penso naquela frase que uma velha senhora uma vez falou: “será que amamos tanto alguém na vida para depois odiá-la na mesma proporção”. É isso o que realmente acontece? Caso sim, convoquemos todos logo ao enaltecimento da característica maior do amor: a divergência.&lt;br /&gt;    Valorize-se tal fundamento então, pois parceiros serem diferentes não quer dizer nada de anormal, pois com o maior catalisador do universo, o tempo, é que diferenças se tornam complementares, umas se encaixando às outras, como peças de quebra-cabeça, que embora tão disformes pareçam, tão suaves parecem quando estão juntas, conectando-se, nunca uma sobressaltando a outra, jamais formando juntas acirradas, e  sim formando um conjunto em harmonia, tanto visualmente quanto na maneira estrutural. Esquecei esta ilusória idéia que o verdadeiro amor só existe quando ocorre a ponto das pessoas se tornarem iguais, até mesmo em uma só pessoa de fato, pois tal conseqüência é arbitrária, o que atribui a pior das características à mesma: a artificialidade. Ame, mesmo que seja da maneira mais divergente possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Autor: Vitor Lopes Moreira)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-6047283784601432402?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/6047283784601432402/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=6047283784601432402' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/6047283784601432402'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/6047283784601432402'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2009/05/dois-um-nenhum.html' title='Dois, um, nenhum'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-6904444189233272699</id><published>2008-06-11T10:36:00.000-03:00</published><updated>2008-06-11T10:37:48.874-03:00</updated><title type='text'>Resenha: CARVALHO, José Murilo de. “Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi”. São Paulo: Companhia da Letras, 1987.</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;A importância acadêmica das pesquisas do historiador José Murilo de Carvalho fazem um contraste imenso com seu texto apresentado no livro “Os bestializados: o Rio de janeiro e a República que não foi”. A primeira impressão que tive foi que abriria mais um livro chato e monótono sobre algo a respeito da história de nosso país, bem típico de alguns historiadores que ficam tanto tempo isolados pesquisando em arquivos que parecem esquecer a arte da boa escrita, no entanto, a surpresa maior é a maneira como José Murilo de Carvalho consegue escrever um clássico da historiografia brasileira de forma simples e dinâmica, ao mesmo tempo em que expõe sua tese principal de maneira fantástica. Não se trata de um livro para os estudiosos das ciências humanas somente, mas sim algo essencial a quem se considere cidadão brasileiro.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;O autor apresenta uma visão da cidade do Rio de janeiro bastante ampla ao leitor, dando ênfase a alguns problemas de cunho político, econômico e social, fruto estes da instável transição do Império para a República. A possível inexistência de um povo, no sentido político da palavra, é o que dá impulso ao trabalho do pesquisador. O autor, no entanto, reforça a idéia de que a diversidade da população do Rio de Janeiro, que crescera drasticamente em pouco tempo devido ao fato do Estado ter se tornado capital, garantiria a existência de diversos povos, e não de um único. Assim, diferentes opiniões e visões fazem parte da política no início da república, e, além do mais, pode-se também dividir a política entre os que participam dela ou não, o que José Murilo de Carvalho chama de ativos e inativos politicamente. No cenário político que acabara de se formar as eleições não serviam como instrumento de representação popular, pois eram negadas à esmagadora maioria da população. Desta forma, o autor tenta apresentar um ambiente político que não era propício à participação popular, e que por isso resultou na utilização de outros canais de atuação por parte do povo. Portanto, de indiferente à política a população do Estado fluminense não tinha nada, o que ocorria é que faziam à sua maneira a forma de agir politicamente, de expressar a cidadania, às vezes através de modos que contradiziam o que se esperaria moralmente de uma atuação política de verdade.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Essa informalidade gerou uma multiplicidade de ideologias, trazidas estas da Europa, que eram divulgadas na sociedade fluminense através da imprensa jornalística, de manifestações, de festas populares, entre outras maneiras. Tais meios representaram o modo como a população se conscientizou politicamente, segundo seus próprios costumes, seu dia-a-dia. É preciso ver que uma participação política ativa segundo os moldes europeus não vai estar presente nas práticas do povo, e é isso que o autor consegue mostrar através de uma série de exemplificações destes canais alternativos de atuação política. A população não é alheia ao que acontece na capital federal, ela só participa de uma maneira não-formal, e isso é fruto, como nos mostra o José Murilo de Carvalho, da própria República, que não permitiu a formação de cidadãos pois além de limitar o eleitorado, eliminou também do Estado a obrigação de fornecer educação ao povo. Tais medidas evidenciam a instável relação entre o governo e a população, que resulta no surgimento de uma cidadania à maneira do povo, segundo o meio social em que vivem.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;O ponto alto do livro de José Murilo de Carvalho é o capítulo em que trata a respeito da revolta da Vacina. Este incidente seria a melhor expressão possível da existência de diferentes acepções acerca do que seria a cidadania, demonstrando também uma consciência política em se fazer ativa politicamente. Ocorre uma oposição à “Estadania” (termo do autor) imposta pela máquina governamental, pois através desta somente os que contribuíam seguindo os interesses do regime republicano é que seriam dignos de receber o epíteto de cidadão. Percebe-se então que nunca um humilde trabalhador estaria inserido no ambiente político proposto por essa frágil República.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;A revolta, como enfatiza o autor no livro, não possuiu uma causa única. Ao contrário, foi fruto de uma multiplicidade de fatores, o que caracteriza as diferentes formas que a população via como vias de participação política, ou seja, meios diferentes da idealização do que seria a cidadania em si.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Neste caldeirão de pensamentos e ações que marcou o Rio de Janeiro em fins do século XIX e início do século XX é que José Murilo de Carvalho conclui a inexistência de um povo bestializado aos acontecimentos políticos vigentes. Participações políticas formais nunca haveriam de existir, pois o próprio governo se encarregara de limitar tal ato através do voto restrito aos alfabetizados, além do uso de outros aparatos burocráticos. Porém, a Revolta da Vacina mostra como outros meios de se exercer a cidadania são possíveis, muitas vezes maneiras estas muito díspares umas das outras, mas que servem para elucidar a tese central do historiador: um regime republicano não veio a excluir o povo da via política, pois este encontrou outros canais para exprimir seus anseios, suas opiniões, ou seja, sua voz política ativa. Em suma, a consciência de nos encararmos como cidadãos existe em todos nós, e não é a máquina estatal que nos limitará, mesmo que não se transmita tais idéias da maneira de atuação vigente, deve-se expô-los da forma como melhor convir, ou da forma em que se é possível.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;José Murilo contraria muitos historiadores que defendem a população de inícios da República como apática do ponto de vista político, não constituindo assim um povo &lt;st1:personname productid="em si. Em" st="on"&gt;em si. Em&lt;/st1:PersonName&gt; meio às idéias apresentadas pelo autor em seu livro, torna-se difícil de sustentar tais teses sobre esta possível apatia popular. Os arranjos entre o governo e as oligarquias, em nome da manutenção do poder, excluíam as massas da participação política, que por sua vez foram obrigadas a se organizarem da maneira como lhes fosse possível, estabelecendo, assim, mundos paralelos. Bestializado, como nos mostra o autor, é aquele que se guiava pela aparência do formal, pois a realidade se escondia atrás dessa formalidade. Logo, não há uma falta de intervenção do povo no seio político, e a Revolta da Vacina serve para elucidar a existência de um sentimento que defendesse a honra e os direitos do povo, mesmo que fossem tão heterogêneos o que se entenda como cidadania ou participação política.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Seja do lado da elite, Estado ou do povo, grandes nomes se fazem nesta época de intensa movimentação no Rio de Janeiro. E eis um dos grandes trunfos da obra de José Murilo de Carvalho, pois ele não mede esforços para citar diversos nomes que dão credibilidade à história sobre o início da Primeira República. Recorrendo a jornais do período, sejam escritos pela elite ou pelo povo, o autor busca detalhes mínimos para enriquecer sua obra. Percebe-se que não foram poucas as visitas aos arquivos públicos fluminenses, mas que tamanho trabalho foi recompensado pela magnitude que a obra alcançou. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-6904444189233272699?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/6904444189233272699/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=6904444189233272699' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/6904444189233272699'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/6904444189233272699'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2008/06/resenha-carvalho-jos-murilo-de-os.html' title='Resenha: CARVALHO, José Murilo de. “Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi”. São Paulo: Companhia da Letras, 1987.'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-5293477400511517173</id><published>2008-06-10T10:25:00.000-03:00</published><updated>2008-06-10T10:26:45.782-03:00</updated><title type='text'>Fichamento: KRAUSE-VILMAR, Dietfrid. “A negação dos assassinatos em massa do nacional-socialismo: desafios para a ciência e para a educação política”</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;A possibilidade de negação das atrocidades cometidas pelos nazistas é algo que o autor repudia desde o início de seu texto, a ponto de se perguntar como a sociedade se torna suscetível a este ideal tão sem lógica, chegando mesmo a ser irracional. É importante ressaltar é que estas mesmas pessoas que falam coisas que parecem absurdas não estão isentas de criarem correntes de opiniões poderosas (como foi o próprio caso do nacional-socialismo). Tal negação pública dos crimes nazistas é chamada pelos historiadores de revisionismo. Tal corrente visa principalmente relativizar as declarações feitas pelas testemunhas da época, pois há a defesa da idéia de que os sobreviventes dos campos de concentração teriam exagerado em seus relatos. Os pontos que foram negados pelos revisionistas, segundo enumera o autor do texto, são os seguintes: o número de pessoas assassinadas, as técnicas usadas no extermínio, documentos e figuras históricas que foram apresentados, os locais dos campos de morte e a existência das câmaras de gás.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;No entanto, “o cerne das afirmações dos revisionistas consiste na negação do assassinato em massa dos judeus” (KRAUSE-VILMAR, página 2). Desta forma, questiona-se também a culpa dos alemães pela guerra e a dimensão dos crimes cometidos por eles. “Essas pessoas relativizam os crimes alemães acentuando os chamados crimes de guerra dos aliados, fazendo cálculos compensatórios macabros” (KRAUSE-VILMAR, página 2). A teoria mais absurda, como elucida o autor do texto, é a de que Hitler não teria conhecimento do que estava ocorrendo aos judeus, já que tais crimes não seriam ordenados pelas lideranças máximas do partido nacional-socialista (tal idéia destituiria o caráter racional e sistemático do genocídio arquitetado pelos nazistas) O holocausto poderia até mesmo ser uma invenção elaborada pela “conspiração judaica internacional” segundo os revisionistas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;O autor nos apresenta a existência de diferentes níveis de negação, que vão desde argumentos que podem ser refutados facilmente, até hipóteses técnicas ou químicas mais complexas, que não podem ser desmentidas logo de início. “Embora tentem se fazer passar por pesquisadores científicos e sérios, o método que eles empregam não correspondem aos princípios científicos” (KRAUSE-VILMAR, página 3), já que os testemunhos das vítimas são muitas vezes tratados de maneira tendenciosa, além da apresentação da Alemanha como sendo vítima da guerra e a descontextualização arbitrária de documentos e de alguns fatos históricos. “Os revisionistas gostam de copiar coisas uns dos outros e também de citar uns aos outros. Entretanto, a quantidade de material que eles apresentam, revela-se, quando examinada mais de perto, muito pobre” (KRAUSE-VILMAR, página 6).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Outro fator que permanece, no mínimo estranho, em meio ao discurso revisionista é que quase todos os trabalhos convergem ao campo de Auschwitz, o que faz com que outros crimes sejam somente tematizados de passagem. E é preciso notar também que é característico dos revisionistas o uso de uma linguagem marcada pelo ódio e pelo desprezo, longe do ideal imparcial e objetivo das pesquisas em si.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;O autor contraria a idéia de que as acusações de genocídio sistemático poderiam ser fruto do pós-guerra, até porque documentos internos do regime nazista já negam por si sós tais argumentos. Argumentos revisionistas são perigosos na medida em que são postos em circulação e atingem assim a opinião pública, no entanto, “temos a obrigação de refutar tal tolice, caso a mesma venha a obter alguma repercussão junto ao público; e devemos fazê-lo, sempre com base em argumentos” (KRAUSE-VILMAR, página 8).&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-5293477400511517173?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/5293477400511517173/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=5293477400511517173' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/5293477400511517173'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/5293477400511517173'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2008/06/fichamento-krause-vilmar-dietfrid-negao.html' title='Fichamento: KRAUSE-VILMAR, Dietfrid. “A negação dos assassinatos em massa do nacional-socialismo: desafios para a ciência e para a educação política”'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-8815545626710616704</id><published>2008-06-08T11:35:00.001-03:00</published><updated>2008-06-08T11:36:24.842-03:00</updated><title type='text'>Resenha filmográfica: "Triunfo da Vontade". Direção de Leni Riefenstahl. Ano de produção: 1934.</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;O documentário de Leni Riefenstahl representa um marco no que diz respeito à propaganda nazista. Encomendado pelo próprio Partido Nacional-Socialista Alemão, e autorizado pelo führer, o filme apresentado tem a intenção original de enaltecer os primeiros anos do partido para que assim as futuras gerações pudessem olhar para trás e ver como o Terceiro Reich moveu massas populares através de uma causa comum.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;O documentário-propaganda é rico em imagens, principalmente do encontro de Nuremberg, reforçando o ideal nazista da época. A própria qualidade da película é algo impressionante para a época, mostrando-se de alta qualidade, talvez como um mero reflexo no próprio partido alemão. O filme é cansativo pois mostra tudo relacionado aos nazistas no cotidiano político, como discursos, passeatas, desfiles, entre outras coisas. Ou seja, evidencia-se a imagem pomposa, ufanista e de ordenamento que a Alemanha daquela época vivia. Os desfiles parecem não acabar nunca, são exibidos uns atrás dos outros, quase que sem pausa. Se for visto como mais um filme em si, o documentário pode passar despercebido pela opinião dos que assistem por ser monótono, chato e cansativo demais (até porque a duração do filme é muito grande).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;Historicamente, no entanto, o documentário-propaganda é fascinante. O próprio título já expressa tudo: uma referência à vontade de potência da Alemanha nazista. A grandiosidade é a marca registrada do documentário. A narração é mínima, nula, e somente tem espaço durante os pronunciamentos dos políticos dos personagens de partido. Riqueza de detalhes mínimos, como a euforia das massas, o modo de falar dos palestrantes, o ordenamento dos desfiles, tudo isso ganha destaque no filme pois representam a concretude de um ideal, tirando desta política um possível caráter utópico.É bastante expressivo também porque mostra a realidade, o que acontece de fato. A propaganda era o ponto forte do regime de Adolf Hitler e a mesma encontra-se em destaque ao longo da película.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;Em suma, ao se ver o filme sob um olhar puramente contemporâneo ele parecerá não fazer sentido, ser chato. É preciso ver o peso histórico que as imagens possuem, o caráter simbólico, e notar o quanto pesavam fatores como propaganda e políticas de massa no regime nacional-socialista da Alemanha.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-8815545626710616704?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/8815545626710616704/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=8815545626710616704' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/8815545626710616704'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/8815545626710616704'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2008/06/resenha-filmogrfica-triunfo-da-vontade.html' title='Resenha filmográfica: &quot;Triunfo da Vontade&quot;. Direção de Leni Riefenstahl. Ano de produção: 1934.'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-2088240141166525444</id><published>2008-06-07T23:05:00.002-03:00</published><updated>2008-06-07T23:13:44.138-03:00</updated><title type='text'>Resenha literária: GRASS, Günter. "Passo de Caranguejo". Tradução de Flávio Quintiliano. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;"&gt;O autor alemão Günter Grass aborda o tema do neonazismo, este intimamente ligado ao chamado nazismo clássico, que está mesclado à memória e a utilização desta, através mesmo de teorias revisionistas. A história gira em torno do personagem principal Paul, que tem a vida marcada pois nascera durante o naufrágio do navio alemão Wilhelm Gustloff, que representaria a expressão máxima do ideal nacional-socialista (pois tal navio não possuiria distinção de classes, todos os compartimentos seriam iguais). A partir deste fato, o personagem, que é um jornalista, é contratado por um editor para recontar essa história em um artigo e ligá-la ao que sua mãe (também sobrevivente do naufrágio) também dizia a respeito.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;"&gt;Com base nessa demarcação profissional do personagem, o autor do livro nos apresenta um relato cheio de detalhes a respeito do naufrágio, não excluindo personagens principais e datas. Tal abordagem, ou seja, a tentativa de Günter Grass de inserir o leitor na análise em minúcias de tal fato torna, por vezes, monótona a leitura do livro. São páginas e mais páginas de detalhes que parecem não ter fim, como horários e outras coisas não menos importantes, mas que poderiam ficar de fora porque não fariam a menor falta. Esta enxurrada de informações quase tira o aspecto mais dinâmico do livro, e o que dá certa emoção durante a leitura: a própria pesquisa do personagem Paul em busca de informações a respeito do navio na internet, além da lembrança de fatos que sua própria mãe enaltecia, o que faz com que ele entre em contato com sites neonazistas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;"&gt;Durante esta busca o jornalista entra em diversos chats neonazistas para buscar informações e datas. Sua narrativa a respeito do naufrágio gira em torno de três personagens principais que estão intrinsecamente ligados: Wilhelm Gustloff, David Frankfurter e Alexander&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Marinesko. O primeiro seria o chefe da divisão do partido nacional-socialista na Suíça. Homem empenhado em uma ideologia, político vigoroso e exemplo de dedicação a ser seguido. O segundo personagem trata-se&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;se um estudante de medicina judeu que, buscando defender sua identidade como tal e servir de exemplo a todo povo judaico, assassina o político alemão a tiros. Tal ato segue-se com a prisão do estudante e também&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;com a identificação do político alemão assassinado como um exemplo a nunca ser esquecido, um “mártir” a ser rememorado. Tal identificação como “mártir” faz com o grande navio nazista da época seja batizado com seu nome, Wilhelm Gustloff. Este navio seria a expressão máxima da política alemã, pois não apresentaria divisão de classes e seria usado em prol do povo alemão, seja em excursões para os trabalhadores, ou em uma possível guerra. Alexander&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Marinesko é o comandante russo do submarino que lançou três torpedos contra o navio alemão, provocando seu naufrágio. Günter Grass explora ao máximo o caráter simbólico de cada ação, analisando as particularidades de cada personagem.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;"&gt;Em meio ao relato do naufrágio com base na história de vida destes três personagens principais, o jornalista Paul se insere na história também pois aos poucos vai se identificando com algumas características de cada um. Neste sentido, reavalia sua vida em si, seu papel como profissional, filho, marido, pai, e até mesmo &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;seu papel como cidadão da Alemanha. A narrativa&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;do autor do livro mistura o retrospecto jornalístico do personagem principal a respeito do naufrágio à análise de sua própria vida, o que torna a leitura do livro um pouco complicada. De uma hora para outra o relato dá espaço a uma lembrança pessoal de Paul. Esta forma de se escrever é dinâmica, e a própria lógica da história catalisa esta ação, porém, o autor ora dá demasiada importância ao relato em si, ora às lembranças pessoais do personagem. Raros são os momentos em que essa mescla de informações ocorre de maneira orgânica, por assim dizer, acompanhando o caráter de texto corrido, integrado, uno, que o autor tenta atribuir à sua obra.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;"&gt;A pesquisa na internet faz com que o personagem Paul entre em contato com um neonazista que assume&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;um discurso muito similar ao que seu próprio filho, Konny, usara ao expressar sua opinião a respeito de um assunto político. Aos poucos, Paul descobre que o revisionista do outro lado da tela do computador é seu próprio filho, que encontrou bases nos discursos da própria avó para assim recontar a história do naufrágio segundo uma perspectiva que favoreça aos alemães. A partir deste ponto, o livro parece tomar um rumo totalmente diferente, o que o torna mais atrativo de se ler. Pode-se dividir o livro em dois tomos, e essa descoberta por parte do personagem representa este ponto de cisão.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;"&gt;Paul é dual, pois ao mesmo tempo em que busca uma maior aproximação paternal com o filho, devido a descoberta de que o mesmo se trata de um neonazista, esta ocorre de maneira intimamente jornalística e investigativa, e não de uma maneira sentimental. É um personagem problemático, que se vê preso ao passado (pois nascera durante o naufrágio) e por isso rejeita tudo o que se relacione a ele, porém, esquece de usar esta própria vivência em prol da educação moral do filho. Desta forma, Konny cresce em meio às influências da avó, que vive rememorando o navio alemão, contando suas lembranças, perpetuando um certo ideal na cabeça do menino. Günter Grass dá enfoque a esse aspecto, para ele passado e futuro convergem na mentalidade de Konny simultaneamente, pois ao mesmo tempo em que ele tem acesso ao passado (as lembranças da avó Tulla) também se encontra associado ao futuro, pois é por meio da internet, do computador, que ele divulga suas idéias e opiniões. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;"&gt;De início, parece que a trama em si é só um pano de fundo, e o que Günter Grass abordaria mesmo de fato seria o neonazismo. Porém, tal pano de fundo se torna essencial para mostrar como passado e futuro estão intimamente ligados, que o neonazismo não passa de algo parecido com o nazismo em si, porém, atendendo a uma conjuntura própria de sua época, encontrando meios de divulgação próprios, ou seja, tendo uma dinâmica tão específica que por fim se torna diferente do nazismo dito clássico.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;"&gt;O modo de escrita do autor é no mínimo desconcertante, forma-se uma espécie de tempo paralelo, pois o que ele vive se liga ao seu passado, e o que seu filho vivencia se liga ao passado do pai e da avó, e ao mesmo tempo marca o presente dele. A opção de narrativa do autor é o que podemos dizer de diferente do habitual e, portanto, ousada. Tal escolha dá um tom muito pessoal à obra de Grass.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;Em suma, trata-se de uma obra muito boa a respeito do nazismo, até porque mostra que o mesmo não se pode dar como finalizado já que encontra meios diferentes que propagem a sua existência (no caso, a internet). O autor é altamente contemporâneo, pois consegue encaixar sua obra perfeitamente ao tempo em que ela é escrita, não deixando que a mesma se encontre desvinculada dos fatos históricos &lt;st1:personname productid="em si. O" st="on"&gt;em si. O&lt;/st1:personname&gt; que pode parecer monótono e factual de início ganha complementaridade a partir do momento que a narrativa se desenrola. A obra ganha densidade ainda maior quando se lembra que o próprio Grass participou da Segunda Guerra Mundial - não como vítima, mas como membro da juventude hitlerista (o que veio à tona faz pouco tempo, resultando em imensas críticas ao autor). Günter Grass só teve consciência do mal que representou o furacão nazista muito tempo depois dos estragos, e ainda bem que tal percepção resultou na ação mais importante de todas: a produção de um excelente livro a respeito do tema. Em suma, o tema é evidenciado pelo autor com um problema muito mais atual do que simplesmente de cunho histórico.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-2088240141166525444?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/2088240141166525444/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=2088240141166525444' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/2088240141166525444'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/2088240141166525444'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2008/06/grass-gnter-passo-de-caranguejo-traduo.html' title='Resenha literária: GRASS, Günter. &quot;Passo de Caranguejo&quot;. Tradução de Flávio Quintiliano. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-5597473575251592000</id><published>2008-06-04T13:58:00.002-03:00</published><updated>2008-06-04T14:42:33.722-03:00</updated><title type='text'>"História de vida: uma percepção historiográfica no dia-a-dia". Texto de Vitor Lopes Moreira.</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm; line-height: 150%;"&gt;Recordo-me muito bem do meu primeiro contato com a História, quando passei a ter esta disciplina no colégio, introduzida à grade colegial na quinta série do ensino fundamental. Fiquei impressionado com a gama de informações e conhecimentos que a mesma me presenteou. Achava-me em pleno contato com mundo, em pleno contato com a verdade, e tudo isso foi resultado do meio como a História era ensinada no colégio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm; line-height: 150%;"&gt;Uma História puramente factual, linearmente marcada no tempo, detentora de todas as certezas, e presa em suas datas. Olhando a objetividade deste tipo de História ensinada, até parece a &lt;i&gt;História científica&lt;/i&gt;&lt;b&gt;1 &lt;/b&gt;proposta por Ranke. Porém, esse método de ensino, adotado enquanto cursei o ensino fundamental e médio, não faz mais que tornar a História irrelevante no espaço em que a mesma ocupa, tanto em nosso cotidiano quanto em nosso ambiente cultural. Esse tipo de História que esteve presente na maior parte da minha vida encontrava-se, embora eu não soubesse na época, afastada de sua principal finalidade: “&lt;i&gt;levar o homem a refletir sobre as formas de vida e de organização social em todos os tempos e espaços, procurando compreender e explicar suas causas e implicações&lt;/i&gt;”&lt;b&gt;2&lt;/b&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm; line-height: 150%;"&gt;Passei a conhecer a “outra face” da História a partir do momento em que ingressei na faculdade (mais especificamente, quando entrei em contato com o estudo da teoria da História). Confesso que sofri um choque quando iniciei os estudos de metodologia da História. Era difícil aceitar essa outra visão da História, conflitante e dinâmica, muito diferente da qual eu estava acostumado. Foi preciso desconstruir tudo o que eu tinha aprendido até aquele momento sobre o que era História. Hoje em dia, vejo que o termo “domesticado” é bem melhor empregado do que o termo “acostumado”, logo, eu me pergunto: Por que essa domesticação aos alunos para que estudem uma História que no futuro não virá a lhes servir para nada? Sem um pingo de reflexão ou compreensão, esse método aplicado nas escolas limita intelectualmente os alunos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm; line-height: 150%;"&gt;Digo isto porque eu fui um dos que sofreram um “baque” imenso ao entrar em contato com esse novo saber, talvez não o sofresse se não escolhesse a disciplina História para me graduar, porém, provavelmente continuaria cego ao que realmente ocorre no mundo devido a uma limitação causada por uma infinidade de datas e nomes próprios que não iriam servir de nada para o meu desenvolvimento intelectual. Creio que as datas são importantes para nos situarmos temporalmente, porém, dedicar-mos somente à essa forma de estudo nos ocultaria o que de mais extraordinário há: as formas de pensar, os ideais, os sentimentos, entre outras coisas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm; line-height: 150%;"&gt;Quando o meu horizonte histórico se ampliou (a partir do momento em que entrei na faculdade), vi que a verdade está muito além do que eu imaginava (isto, é claro, se eu ignorar o possível fato da verdadeira e única verdade não existir, o que é uma possibilidade). Assim, se não teria como saber a verdade sobre o passado, então, por que continuar procurando por elas? Concordo com a opinião de &lt;i&gt;Keith Jenkis&lt;/i&gt;&lt;b&gt;3 &lt;/b&gt;a respeito da busca pela verdade, pois considero essencial que esta perseguição a um ideal é o que deve prevalecer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm; line-height: 150%;"&gt;Algo que também creio que está presente em nossa natureza é a dúvida, a incerteza. O &lt;i&gt;pensamento cético&lt;/i&gt;&lt;b&gt;4 &lt;/b&gt;é fundamental, e deve ser estimulado (o que não acontece nas escolas). Adota-se uma postura, nessas instituições de ensino, de que o que se está trabalhando seja o verdadeiro, o imutável, mesmo se sabendo que não possuem argumentos, e muito menos bases, para comprovar isso.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm; line-height: 150%;"&gt;Talvez eu seja impossibilitado, no futuro, de ensinar a História tal qual ela é, devido às necessidades e aos interesses das pessoas que irão me empregar em suas instituições de ensino. Porém, lutarei para que eu possa passar aos meus alunos a História reflexiva, dinâmica (com base em fatos sim, mas não totalmente factual). Apresentar os fatos como uma cadeia de acontecimentos cristalizados está fora dos meus planos, e, tenho que admitir que o estudo da teoria da História contribuiu para que eu pensasse dessa forma diferente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm; line-height: 150%;"&gt;O estudo da metodologia histórica não contribuirá apenas para minha futura vida acadêmica ou profissional somente, mas sim para o meu modo de viver como um todo. Hoje em dia, por exemplo, eu abro as páginas do jornal e as leio tentando entender todo o contexto em que uma determinada notícia está inserida, buscando entender o que o autor da matéria tentou passar ao público, e, não aceitando assim de imediato o que está escrito, sentindo uma necessidade de questionamento e reflexão quase que naturais. Outro exemplo é que quando fui ler a literatura de &lt;i&gt;Gabriel García Márquez&lt;/i&gt;&lt;b&gt;5&lt;/b&gt;, recentemente, pude perceber a noção de tempo cíclico que o autor tenta passar aos leitores. Achei interessantíssimo, pois, creio que se eu não estudasse a teoria da História, essa noção de tempo do autor passaria despercebida por mim, além, também, do motivo pelo qual ele tenta empregar esta idéia em seu livro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm; line-height: 150%;"&gt;O estudo da teoria da História auxilia também no que diz respeito às outras disciplinas oferecidas pelo curso de História nas faculdades. Ao estudar a História da América , da África, ou afins, uma certa “bagagem experencial”, que é dada através da metodologia, é indispensável, pois, a partir daí o aluno se sentirá mais seguro para não cometer erros, como o anacronismo por exemplo. A noção de que a História possui um tanto de subjetividade deve ser levada em conta ao se estudar outras disciplinas. Não se deve exaltar-se, esquecendo da objetividade, que por menor que haja na História, deve existir. Não devemos pensar qualquer coisa a respeito de qualquer época, pois tudo depende de seu contexto histórico. Desta forma, a teoria serve para impor estes e outros limites.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm; line-height: 150%;"&gt;À leitura do autor alemão &lt;i&gt;Jörn Rüsen&lt;/i&gt;&lt;b&gt;6, &lt;/b&gt;notei que o caráter reflexivo e o conhecimento só surgem a partir do momento em que o historiador faz uma auto-reflexão acerca de seu trabalho e de sua função na sociedade. A auto-reflexão é o início do interesse para os “produtores de história” (termo usado por Keith Jenkis, o qual gostei muito), sendo assim, compartilho a mesma idéia do autor: que a teoria da História contribui para formar a capacidade de reflexão. Os historiadores, durante seus estudos e pesquisas, devem levar em conta e pensar a respeito do objetivo de sua prática profissional. Deste modo, as fontes não dizem por si sós, e o interesse no conhecimento histórico surge a partir de que a formação de certos tipos de idéias visa suprir uma certa carência de orientação no tempo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm; line-height: 150%;"&gt;A meu ver, a teoria da História visa não somente explicar o que é a História em si, mas também, como o ofício do historiador se insere nas relações de poder em qualquer em qualquer formação social de que ele se origine.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm; line-height: 150%;"&gt;Concluindo, o estudo da teoria da História visa, principalmente, mostrar que a mesma não se preocupa em rememorar o passado somente. Visa muito mais além, mostrando que a História se trata de um discurso cambiante e problemático (tendo como pretexto um aspecto do mundo, o passado) produzido por historiadores (cujas cabeças e o modo de pensar estão no presente), que trocam seu ofício uns com os outros e cujos produtos, uma vez colocados em circulação, encontram-se sujeitos a uma série de usos teoricamente infinitos, mas que na realidade correspondem a uma infinidade de bases de poder que existem naquele determinado momento, e que estruturam e distribuem ao longo de um espectro do tipo “dominante” ou “marginal” os significados das História produzidas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;u1:p&gt;&lt;/u1:p&gt;&lt;u&gt;Notas&lt;/u&gt;:&lt;u1:p&gt;&lt;/u1:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-left: 36pt; text-align: justify; text-indent: -18pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;u1:p&gt;&lt;/u1:p&gt;1) &lt;/b&gt;O contraditório é que este tipo de História, ministrada no colégio, não tinha nada de científica pelo simples fato de não haver contato com as fontes (o que Ranke propunha primordialmente), e sim, somente com uma determinada historiografia. O que qualquer autor dissesse deveria ser encarado como verdade única e imutável. E, indo contra suas formações universitárias, os próprios professores em sala de aula guiavam-se exclusivamente pelos livros didáticos, não estimulando assim os questionamentos e as dúvidas. Apresentavam somente os fatos, as certezas, sem direito às dúvidas, inibindo assim o surgimento de um pensamento cético, crítico. O que ocorria era a imposição de uma certeza, de uma verdade. Assim, ao longo do meu ensino fundamental e médio, não pude desenvolver um pensamento crítico, pois este fora abafado por uma História dita verdadeira, imposta aos alunos à força.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-left: 36pt; text-align: justify; text-indent: -18pt;"&gt;&lt;u1:p&gt;&lt;/u1:p&gt;&lt;b&gt;2) &lt;/b&gt;Esta definição para a finalidade do estudo da História encontra-se no livro “O que é História”, de Vavy Pacheco Borges. Segundo esta autora, presente e passado estão indissociavelmente ligados na História, tornando assim o ensino e o estudo dessa disciplina, imprescindíveis para o perfeito entendimento dos tempos modernos. Para a autora, o passado visto por si mesmo, o passado pelo passado, tem um interesse muito limitado, e, por vezes, nulo. A História que deve existir majoritariamente não deve visar a explicação desse passado distante e morto, e sim, contribuir para a explicação da realidade em que vivemos. Assim, a História, sendo uma forma de conhecimento da verdade, está sempre se constituindo, pois o conhecimento que ela produz nunca é perfeito ou acabado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-left: 36pt; text-align: justify; text-indent: -18pt;"&gt;&lt;u1:p&gt;&lt;/u1:p&gt;&lt;b&gt;3) &lt;/b&gt;Keith Jenkis, em seu livro “A História Repensada”, diz que sem a verdade, certas pretensões (objetividade, essência, essencial, imparcialidade) que determinam as coisas de uma vez por todas, ficariam impotentes. Segundo o autor, a objetividade é um fator importantíssimo para que se possa haver a discriminação entre relatos rivais envolvendo um mesmo problema.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-left: 36pt; text-align: justify; text-indent: -18pt;"&gt;&lt;u1:p&gt;&lt;/u1:p&gt;&lt;b&gt;4) &lt;/b&gt;Segundo Plínio Junqueira Smith (em seu livro: “Ceticismo”), para que uma pessoa conheça de fato algo, três condições devem ser cumpridas. Em primeiro lugar, a pessoa precisa crer naquilo que diz, ou seja, ela precisa acreditar no que está dizendo, pois, alguém pode muito bem dizer uma coisa que de fato é verdadeira, mas que não acredita. Assim, essa pessoa não sabe o que afirma. Seguido disso, o autor diz que obviamente, nossas crenças podem ser falsas – e uma crença falsa nunca é conhecimento. Então, a segunda condição necessária para o conhecimento é que a crença seja verdadeira. Por último, quando um indivíduo tem uma crença verdadeira, ele deve ser capaz de dar uma boa razão para a sua crença, deve ser capaz de justificá-la adequadamente. Portanto, Plínio Junqueira Smith afirma que uma pessoa sabe alguma coisa quando cumpre essas três condições: (1) ela precisa crer no que diz (ou pensa); (2) sua crença tem que ser verdadeira; (3) ela precisa dar uma boa razão ou justificar adequadamente a sua crença. Assim, o autor define o conhecimento como uma “crença verdadeira justificada”.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-left: 36pt; text-align: justify; text-indent: -18pt;"&gt;  &lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-left: 36pt; text-align: justify; text-indent: -18pt;"&gt;&lt;!--[if !supportLists]--&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style=""&gt;5)&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 7pt; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal;"&gt;      &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;!--[endif]--&gt;Em seu livro, “Cem anos de solidão”, Gabriel García Márquez, através de um personagem (a matriarca da família Buendía, que se chama Úrsula), tenta fixar a idéia de tempo cíclico nos leitores. Úrsula vive evocando que o tempo volta a se repetir devido à semelhança entre os integrantes de sua família. As características de uma pessoa estão, muitas das vezes, presentes em seu sucessor. A própria genética atua como o fator que torna o tempo a agir ciclicamente. Talvez o autor adote essa idéia somente como a opinião de seu personagem, ou, que a crença de seu personagem seja a sua própria.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-left: 18pt; text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-left: 36pt; text-align: justify; text-indent: -18pt;"&gt;&lt;!--[if !supportLists]--&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style=""&gt;6)&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 7pt; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal;"&gt;      &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;!--[endif]--&gt;Em seu texto “Tarefa e Função de uma Teoria da História” (capítulo 1 do livro “Razão Histórica. Teoria da História: os fundamentos da ciência moderna”).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-left: 36pt; text-align: justify; text-indent: -18pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-5597473575251592000?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/5597473575251592000/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=5597473575251592000' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/5597473575251592000'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/5597473575251592000'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2008/06/histria-de-vida-uma-percepo.html' title='&quot;História de vida: uma percepção historiográfica no dia-a-dia&quot;. Texto de Vitor Lopes Moreira.'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-5862921039755091643</id><published>2008-06-04T13:54:00.003-03:00</published><updated>2008-06-04T14:10:54.156-03:00</updated><title type='text'>Fichamento: GOODRICK-CLARKE, Nicholas. "Sol Negro: cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade". São Paulo: Madras, 2004 (pp.397-401).</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;O autor afirma que a extrema direita racista européia, e mundial, não “cresceu em um vácuo” (GOODRICK-CLARKE, página 397), mas sim como uma resposta ao crescente número de imigrantes que adentraram em diversos países europeus e também nos EUA, no final da década de 50. Assim, grupos neonazistas passaram a defender a idéia de que um domínio racial branco poderia estar ameaçado, o que fez com que o princípio de raça ganhasse destaque em meio aos cultos arianos. Muitas políticas adotadas também possuíam um caráter altamente discriminatório. “Privilégios fornecidos pelo governo com base na raça, por sua vez, estimularam o crescimento da extrema direita racista” (GOODRICK-CLARKE, página 398). Percebe-se um apoio liberal da ação afirmativa, que ultrapassa o caráter meramente racista.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Os brancos viveriam em meio a uma era degenerada pelas misturas raciais e sociais. “Cultos arianos e o nazismo esotérico afirmam poderosas mitologias para negar o declínio do poder branco no mundo” (GOODRICK-CLARKE, página 398), o que é expresso pelo pessimismo cultural de Miguel Serrano e Savitri Devi, por exemplo. Lamenta-se a derrota alemã na II Guerra Mundial e o triunfo do liberalismo na ordem internacional. Desta forma, um multiculturalismo, somado à imigração, gera tais cultos que buscam o reforço de uma identidade com base na raça. Há “a ascensão de um novo nacionalismo como uma cultura de resistência às recentes forças de globalização e de imigração” (GOODRICK-CLARKE, página 399). Vê-se muitas vezes o aumento dasimigrações como fator resultante de problemas econômicos e culturais.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;“O surgimento de gangues racistas de &lt;i style=""&gt;skinheads&lt;/i&gt;, a música do &lt;i style=""&gt;white&lt;/i&gt; &lt;i style=""&gt;power&lt;/i&gt; e a transformação do racismo neonazista em novas religiões populares de identidade branca espelham claramente os crescentes níveis de imigração para países ocidentais e as conseqüentes pressões na direção do multiculturalismo” (GOODRICK-CLARKE, página 401). Nota-se que a desestabilização das democracias ocidentais no pós-guerra geraria ações baseadas em cultos e esoterismo, somadas ao reforço da extrema direita, como um meio de retorno ao passado, onde o que se busca de fato é a legitimação da superioridade de uma identidade branca.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-5862921039755091643?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/5862921039755091643/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=5862921039755091643' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/5862921039755091643'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/5862921039755091643'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2008/06/fichamento-goodrick-clarke-nicholas-sol.html' title='Fichamento: GOODRICK-CLARKE, Nicholas. &quot;Sol Negro: cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade&quot;. São Paulo: Madras, 2004 (pp.397-401).'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-5867311774753124638</id><published>2008-05-27T11:21:00.002-03:00</published><updated>2008-05-27T11:23:39.373-03:00</updated><title type='text'>Resenha filmográfica: “Arquitetura de Destruição”. Diretor: Peter Cohen. País: Suécia. Ano de produção: 1992.</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;O documentário de Peter Cohen é considerado um clássico no que se refere ao nazismo. No entanto, não se trata de mais um daqueles estudos puramente históricos e factuais do regime, e sim, uma busca de explicação do fenômeno alemão por meio da “estética nazista”, da arte e da arquitetura, nos planos e no ideário de Adolf Hitler. O que seria uma única crítica ao documentário não o é, pois o próprio diretor sueco especifica seu recorte de discussão. Desta forma, o hitlerismo alia estética à política como meio de motivação e impulsionamento de um ideal.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;A arte era importante ao nazismo, mas somente a “boa”, pois a má era considerada depravação. Para os idéias de Hitler, a arte era a representação da superioridade da raça ariana, em contraposição às demais. A arte moderna foi apresentada como uma degeneração, fruto de uma inferioridade, que só serviria como exemplo para se mostrar como tais obras distorciam o valor humano e na verdade representavam as deformações genéticas existentes na sociedade. Peter Cohen é fascinante nessa parte do documentário, ao mostrar imagens de exposições organizadas pelo regime fascista, onde se comparavam as obras consideradas de valor à arte depravada. O que é importante ressaltar, e que está intrínseco nesta parte do documentário de Cohen, é o papel das exposições, museus e outros meios de demonstrações culturais, como uma forma de gerar tendências, propondo ideologias, respostas estas aos anseios sociais de uma geração específica, marcada pela derrota da Primeira Guerra Mundial e buscando reconquistar o prestígio de grande nação.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;O filme é rico em imagens de planos mirabolantes de Adolf Hitler em seus projetos arquitetônicos. O &lt;i style=""&gt;führer&lt;/i&gt; colocava sobre arquitetos e artistas o fardo de construir uma nova Alemanha. Recorreu também a médicos, para que montassem teorias racistas e aplicassem monstruosos programas de eutanásia, eliminando assim portadores de deficiências físicas e mentais, contribuindo assim com o esforço de limpar o Terceiro Reich da “sujeira biológica”. O afiado valor estético nazista alia medicina à arte, e o diretor sueco explora isso muito bem ao longo do documentário pelo show de imagens que apresenta ao espectador.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Enfim, Peter Cohen apresenta Hitler com uma profundidade muito maior do que é mostrada&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;em muitos livros ou filmes de história. O documentário foca bem isso ao mostrar o líder nazista construindo seu exército nos mínimos detalhes, desde a criação de uniformes até a organização de desfiles militares e demais apresentações do exército alemão &lt;st1:personname productid="em p￺blico. H￡" st="on"&gt;em público. Há&lt;/st1:personname&gt; um projeto grandioso para o Reich, e Peter Cohen introduz esse pensamento nazista na percepção de quem assiste ao filme, mostrando como o ideal nacional-socialista é fomentado em seus mais íntimos aspectos. A dimensão absoluta que Hitler queria dar à sua megalomania destrói muitos conceitos morais existentes, o principal, que esse “embelezamento” só poderia acontecer através da destruição, o que chega a ser um paradoxo. O diretor é feliz na escolha de imagens, e até mesmo no seu discurso, tirando assim uma imagem de “lunático” ou “louco” que muitos atribuem a Hitler, enfatizando seu lado pensante e meticulosamente organizado, atribuindo assim um caráter altamente racional ao regime nazista em si.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-5867311774753124638?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/5867311774753124638/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=5867311774753124638' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/5867311774753124638'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/5867311774753124638'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2008/05/resenha-filmogrfica-arquitetura-de_27.html' title='Resenha filmográfica: “Arquitetura de Destruição”. Diretor: Peter Cohen. País: Suécia. Ano de produção: 1992.'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-2295793316655539449</id><published>2008-05-24T23:32:00.003-03:00</published><updated>2008-05-24T23:33:20.763-03:00</updated><title type='text'>Fichamento: VIZENTINI, Paulo F. “O ressurgimento da extrema direita e do neonazismo: a dimensão histórica e conceitual” .</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;O tema abordado ao longo do texto de Vizentini é o neonazismo. Para isso, o autor acha indispensável uma análise do nascimento, da expansão e da derrota dos regimes europeus &lt;st1:personname productid="em si. Um" st="on"&gt;em si. Um&lt;/st1:PersonName&gt; período de “hibernação” será também essencial para o ressurgimento de tais movimentos, desta vez modificados sob o contexto cultural e social dos anos 80 e 90. É preciso ressaltar, porém, que “o nazismo faz parte da extrema direita, mas nem toda a extrema direita é exatamente nazista ou neonazista” (VIZENTINI, página 1). Atribuir a tais movimentos um caráter periférico na sociedade também é um erro, pois um possível efetivo reduzido não é o bastante para se negar uma tal importância e perigo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;A crise oriunda da Primeira Guerra Mundial cria e gera o espaço necessário para o desenvolvimento de movimentos ditos fascistas. Da mesma forma, o neofascismo surge segundo circunstâncias próprias. Cada movimento ou regime, em sua época, foi diferente um do outro. O autor aponta para a conivência internacional que houve com relação a regimes desse tipo na Europa, e essas ligações e conexões internacionais permitiram com que o fascismo se afirmasse, pois podem muito bem permitir que um neofascismo se perpetue também. Não deve haver motivos para surpresas, pois negociações e acordos possibilitam com que a política seja desta forma.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Importante ressaltar também o que o autor chama de “colaboracionismo ativo”, que seria a existência de vários grupos políticos e sociais que teriam apoiado o nazismo (no caso alemão), quebrando um pouco o paradigma de uma ocupação alemã plena nos países. Certas camadas sociais, principalmente as elites, participam através de uma espécie de comprometimento.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Uma reconstrução política e econômica da Europa pós-guerra possibilitou que fatores e atores que propiciaram a existência do fascismo sobrevivessem, ainda que em estado de “hibernação”. Houve também uma série de redes internacionais de solidariedade que levaram várias personalidades, elementos importantes do regime derrotado, a buscar refúgio tanto nos EUA quanto no Canadá, mas também nas periferias (na América do Sul esse episódio é bem conhecido). O fascismo sobrevive de uma forma diluída, atendendo às necessidades dos novos tempos, porém, não perdendo a sua força jamais, mas sim adequando-se a um novo ambiente do pós-guerra que já era favorável por si só, onde há um ressurgimento da extrema direita e do neonazismo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;O surgimento de alguns capitalismos bem sucedidos no Terceiro Mundo gera certo “perigo econômico” ao Velho Mundo, o que resulta em movimentos xenófobos como meio de reação. A estagnação e regressão demográfica dos países do Hemisfério Norte também contribuiu para um fluxo migratório elevado para estes países, visando a ocupação de certos cargos que careciam de mão-de-obra. À essas “invasões bárbaras” soma-se o surgimento de alguns movimentos de contra-cultura (como os &lt;i style=""&gt;hippies&lt;/i&gt; e os &lt;i style=""&gt;skinheads&lt;/i&gt; por exemplo), uma alavanca para o recrutamento visando organizações neofascistas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;A queda dos últimos regimes ditos fascistas (Salazarismo, Franquismo e o regime dos coronéis gregos) na década de 70, faz com que a extrema direita de reorganize, buscando principalmente integração, seguindo a conjuntura temporal vigente, essencial para a sobrevivência dessa direita neofascista.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;A retomada do liberalismo na economia dos anos 80 faz com que os europeus tenham medo de novas instabilidades. Tensões sociais encontram uma válvula de escape na xenofobia e no racismo, que representam também o motivo de aderência de um apoio social às bases de movimentos e partidos da direita européia. O cenário político europeu dos anos 80 caminha assim para a direita através da eleição generalizada de governos conservadores na Europa. Todo um rearranjo político é montado. “O que interessa e preocupa não é a manipulação política que se faz desses movimentos, mas, sim, o porquê de largas categorias da população aderirem a eles” (VIZENTINI, página 8). O desencanto das pessoas com os partidos, políticos e instituições democráticas do pós-guerra, segundo o autor, é preocupante, e é o que faz com que um discurso neofascista ganhe espaço.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;A globalização teria também produzido um enfraquecimento do Estado nacional. Assim, “se começa a recriar entidades supostamente étnicas, gerando com isto um fenômeno conflitivo e racista” (VIZENTINI, página 9), o que dá margem a ideais neofascistas. O autor aponta que tais problemas não são de origem étnica e racial simplesmente, mas tratam-se também de questões socioeconômicas e políticas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Sob tais aspectos, Vizentini analisa os regimes fascistas em si e, segundo uma conjuntura específica, o ressurgimento de tais idéias, camuflados por um discurso ultra-direitista que atende aos anseios de uma sociedade desiludida com as democracias do pós-guerra e, ao mesmo tempo, assustada com as diretrizes econômicas e sociais que a Europa pode tomar como rumo.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-2295793316655539449?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/2295793316655539449/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=2295793316655539449' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/2295793316655539449'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/2295793316655539449'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2008/05/fichamento-vizentini-paulo-f-o.html' title='Fichamento: VIZENTINI, Paulo F. “O ressurgimento da extrema direita e do neonazismo: a dimensão histórica e conceitual” .'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-4290679792441154177</id><published>2008-05-14T13:57:00.001-03:00</published><updated>2008-05-14T13:58:30.969-03:00</updated><title type='text'>Fichamento: PAXTON, Robert O. A Anatomia do fascismo. São Paulo, Paz e Terra, 2007. Capítulo 7 (pp. 283-334).</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Ao delimitar o marco inicial do fascismo a partir do momento em que a democracia das massas entra em plena operação, encontrando assim suas primeiras instabilidades, o autor inicia seu trabalho questionando a existência ou não, em qualquer um dos chamados neofascismos, de agentes poderosos o suficiente, fruto estes de uma especificidade temporal, a influenciar políticas governamentais. “O maior obstáculo ao renascimento do fascismo clássico, após 1945, foi a repugnância que ele veio a inspirar” (PAXTON, página 284), e isto foi apenas uma das barreiras que essa possível ressurgência encontrou. Há também as questões metodológicas, onde cada coisa, mesmo que igual, aconteça segundo seu contexto histórico, o que sugere que tal regime não poderia voltar a existir após 1945, ou pelo menos não da mesma forma. Assim, como diz o próprio autor, “um fascismo do futuro (...) não teria que ter uma semelhança perfeita com o fascismo clássico” (PAXTON, página 286-287).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;É preciso elucidar que tal posse de signos e símbolos através de uma perspectiva diferente não tornaria tais possíveis movimentos menos perigosos, pois há uma moldagem destes regimes pelo espaço político em que se desenvolvem. O que Paxton tenta mostrar logo no início de seu texto é que tal renascimento fascista não se baseia em uma repetição exata, mas sim em um equivalente no que diz respeito à função.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Uma Europa pós-1945 presenciou ainda a existência de partidos da ultra-direita que não possuíssem considerável representação, porém, que ganham espaço ao longo do tempo, pois aprenderam com seus próprios erros de se isolarem politicamente, buscando assim novas alianças políticas, resultando estas de uma adequação aos novos tempos. Tais políticas foram incentivadas ainda mais pelo crescimento do xenofobismo, que se acentuou devido ao amento da imigração de habitantes de antigas colônias européias para os países do velho mundo (resultado do fim do imperialismo). Mesmo que não chegassem ao poder, partidos com uma política próxima ao fascismo mudaram o cenário político de seus respectivos países. Paxton também chama atenção ao caráter das gerações nos movimentos quando fala que “embora alguns filhos tenham levado adiante a mesma causa de seus pais, novos recrutas, dando voz a novas queixas, trouxeram novo ímpeto à direita radical européia” (PAXTON, página 294). As mudanças pós-45 levantaram novas questões, o que preparou o público à novos movimentos e partidos de direita, alcançando estes maior êxito nas décadas de 1980 e 1990.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Os governos e partidos convencionais não souberam lidar com os novos problemas enfrentados pela Europa Ocidental após a década de 1970, o que deu brecha para o aumento de partidos políticos alternativos. Em meio a esse cenário não havia um inimigo comum, porém, era marcado por vários problemas, como por exemplo: a globalização, os imigrantes estrangeiros, o multiculturalismo, o enfraquecimento das identidades nacionais e, principalmente, “políticos incompetentes que não sabiam lidar com essas ameaças” (PAXTON, página 297). Aqui surgem oportunidades para novos movimentos de extrema-direita na Europa (o maior exemplo é a &lt;i style=""&gt;Frente Nacional&lt;/i&gt;, da França).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Porém, a preocupação do autor não é o surgimento de tais partidos e movimentos somente, mas sim até que ponto estes se relacionam com a sociedade européia em si, respondendo seus anseios, solucionando seus impasses, ou seja, integrando-se a ela. Até que ponto tais alternativas políticas “normalizaram-se” em meio a tal sociedade? Esta pergunta define a intenção do debate principal proposto pelo autor.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Tais movimentos e regimes não atendiam às exigências de um “fascismo clássico”, nem mesmo se taxavam como fascistas, porém, nas entrelinhas desses discursos direitistas percebe-se um “criptofascismo” (PAXTON, página 303), adequado, é claro, ao seu contexto temporal e geográfico. “Nos programas e declarações desses partidos ouvem-se ecos dos temas fascistas clássicos” (PAXTON, página 304).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;No entanto, temas fascistas clássicos como o ataque à liberdade de mercado e ao individualismo econômico, a repulsa às constituições democráticas e ao estado de direito, a efetivação de guerras de expansão nacional, não encontram-se presentes nessa nova política ultra-direitista de fins do século XX. O que se deve comparar não são apenas programas e retóricas, mas também as circunstâncias contemporâneas com as da Europa entre-guerras. O autor conclui que “em suma, ainda que a Europa Ocidental, a partir de 1945, tenha tido ‘fascismos herdeiros’, e ainda que, a partir da década de 1980, uma nova geração de partidos de extrema-direita, normalizados, apesar de racistas, tenha conseguido até mesmo ingressar em governos locais e nacionais na qualidade de parceiros minoritários, as circunstâncias, hoje em dia, são tão diferentes da Europa do entreguerras que não há abertura significativa para partidos abertamente filiados ao fascismo clássico” (PAXTON, página 307).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;A maioria&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;dos Estados do Leste Europeu presenciou, a partir de 1989, o surgimento de uma direita radical, embora, em sua maioria, tais movimentos não tenham obtido força o suficiente. O fim da URSS foi essencial para a amergência de tais políticas. Um destaque foi o regime de Milosevic na Sérvia que, embora não tenha sido um fascismo de fato, pode ser taxado como um equivalente funcional.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;O campo da equivalência no que diz respeito à função amplia-se ao se levar em consideração a América latina e a África. Ex-colônias, com uma tímida emergência de uma democracia após tal período, são propícias a governos autoritários e tirânicos, porém, deve-se delimitar os limites de tais governos a um fascismo &lt;st1:personname productid="em si. O Peronismo" st="on"&gt;&lt;st1:personname productid="em si. O" st="on"&gt;em si. O&lt;/st1:PersonName&gt; Peronismo&lt;/st1:PersonName&gt; e o Varguismo são exemplos de como “a avaliação das ditaduras latino-americanas pela ótica do fascismo é uma empreitada intelectual perigosa” (PAXTON, página 320). “Para que a comparação&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;seja correta, temos que distinguir entre os diversos níveis de similaridades e de diferenças. As similaridades são encontradas nos mecanismos de poder, nas técnicas de propaganda e na manipulação de imagens e, ocasionalmente, em políticas específicas tomadas de empréstimo ao fascismo, tais como a organização corporativista da economia. As diferenças se tornam mais aparentes quando examinamos os ambientes sociais e políticos e a relação desses regimes com a sociedade” (PAXTON, página 320-321). Não existiu, como conclui o autor, um fascismo pleno e autêntico nos países latino-americanos no período entre 1930 e 1950. No caso do Japão, este visou, através da seletividade, algumas medidas de organização econômica corporativista e de controle popular (implementada pela ação estatal), ao mesmo tempo em que suprimia o ativismo popular desordenado típico dos movimentos fascistas. É fato que o Japão imperial se inspirou em modelos fascistas, compartilhando características importantes com estes, entretanto, faltava a base de um partido de massas único ou de um movimento popular aos governantes. Não se devem esquecer também os regimes ditatoriais da América Latina que eram sustento aos interesses norte-americanos ou europeus (o Chile de Pinochet, por exemplo), que já foram classificados, nas palavras do autor, de “fascismos clientes”. Não são fascismos em sua essência, pois dependem de um apoio e agem segundo um influência externa.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Paxton enfatiza que “uma minoria subjugada pode empregar uma retórica semelhante à do fascismo, mas não há qualquer possibilidade de ela vir a se lançar em seu próprio programa interno de ditadura, purificação e expansionismo” (PAXTON, página 331). Ao se questionar sobre a possibilidade da religião agir como um equivalente funcional do fascismo, o autor chama a atenção de que “um fascismo religioso, inevitavelmente, viria a impor limites ao seu líder por meio não apenas de poder cultural do clero, mas também dos preceitos e valores da religião tradicional” (PAXTON, página 331), porém, não se deve esquecer que a religião em si pode ser tão poderosa quanto a nação no caráter de propulsor de uma identidade.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Ao final de sua exposição, Paxton conclui que não se pode nem se deve buscar réplicas perfeitas dos movimentos fascistas ditos clássicos. Movimentos da direita souberam moderar seus discursos e abandonar o simbolismo do fascismo clássico, parecendo assim “normais”, no entanto, não se deve diminuir a probabilidade de virem a exercer influência, engajando assim partidários à sua doutrina. O estudo do movimento fascista, seja ele clássico ou contemporâneo (com suas modificações apropriadas), arma os cidadãos de saber distinguir políticos desprezíveis e imitadores dos “autênticos equivalentes funcionais do fascismo” (PAXTON, página 334).&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-4290679792441154177?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/4290679792441154177/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=4290679792441154177' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/4290679792441154177'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/4290679792441154177'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2008/05/fichamento-paxton-robert-o-anatomia-do.html' title='Fichamento: PAXTON, Robert O. A Anatomia do fascismo. São Paulo, Paz e Terra, 2007. Capítulo 7 (pp. 283-334).'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-5526045659767709742</id><published>2008-05-11T22:33:00.001-03:00</published><updated>2008-05-11T22:34:16.871-03:00</updated><title type='text'>Fichamento: BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e holocausto. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998. Capítulo “Singularidade e normalidade do holocausto”.</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;O autor inicia seu texto elucidando a dificuldade de compreensão do holocausto visto sua monstruosidade, ao mesmo tempo em que afirma que a nossa própria civilização ocidental foi que tornou tal fato incompreensível. Ao afirmar que as instituições sociais fogem ao nosso controle prático e mental, amplia-se a discussão do assunto além dos limites acadêmicos. Aspectos da civilização que tornaram&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;o holocausto possível ainda estão por aí, o que não elimina a possibilidade de uma reincidência. Bauman chama a atenção, de uma forma até irônica, à ilusiva segurança de nossa “civilização superior”.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Deve-se, primeiramente, retirar o caráter de acidente histórico pertencente a este&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;genocídio que ocorrera de forma tão sistemática e racional. Ao longo do capítulo, percebe-se que “se havia algo em nossa ordem social que tornou possível o holocausto em 1941, não podemos ter certeza de que foi eliminado desde então” (Bauman, página 109). O que não se pode esquecer é que o sistema moderno é poderoso e influenciador, e não há poder ético-moral mais alto que o Estado.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;As verdadeiras causas da preocupação que giram em torno do holocausto são que as normas e instituições da modernidade o tornaram possível e, além do mais, nota-se&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;a ineficiência das redes de controle e equilíbrio que seriam fruto de um processo dito civilizador. Assim, “vivemos num tipo de sociedade que tornou possível o holocausto e que não teve nada que pudesse evitá-lo” (Bauman, página 111), o que atribui ao estudo de tal fenômeno a possibilidade de saber até onde o mesmo pode reincidir ou não.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;O holocausto é algo singular na medida em que sua efetivação contou com aspectos tipicamente modernos, e foi superior na medida em que tal sociedade o institucionalizou. Um genocídio frio, completo e sistemático só foi possível com base em uma moderna sociedade racional. “O assassínio em massa contemporâneo caracteriza-se, por um lado, pela ausência quase absoluta de espontaneidade e, por outro, pelo predomínio de um projeto cuidadosamente calculado, racional” (Bauman, página 114). O genocídio moderno é único visto que segue um propósito, onde tal etapa visa um fim maior, é um elemento de engenharia social que visa produzir um ordenamento social segundo um projeto cultural tipicamente moderno, onde se almeja um arranjo perfeito das condições humanas. O que há é uma “intervenção consciente” a uma sociedade perfeita. O mundo moderno possui um anseio por uma ordem melhor, mesmo que esta seja necessariamente artificial. A sociedade se molda e se constrói de maneira mecânica, e o genocídio através do holocausto trata-se de uma etapa a ser cumprida, visando um fim maior (a “sociedade perfeita”). Nas palavras do autor, “o holocausto é um subproduto do impulso moderno em direção a um mundo totalmente planejado e controlado (...)” (Bauman, página 117).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Segundo Bauman, a peculiaridade do holocausto que o torna único depende de dois fatores: o fato de ser moderno e por trazer à luz elementos da modernidade que normalmente seriam mantidos à parte. O importante é ressaltar a importância&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;de certos mecanismos sociais na busca por um sonho modernista de uma sociedade perfeita, que servem como um meio de silenciar, ou até mesmo neutralizar, certas inibições morais que fariam com que as pessoas evitassem uma resistência a este mal. Aos poucos os homens se armam com “sofisticados produtos técnicos e conceituais da civilização moderna” (Bauman, página 119). Percebe-se que não há um caráter geral de não-violência existente na civilização moderna (tal caráter torna-se pura ilusão), o mesmo não passa de um “mito legitimador” (nas palavras do autor). Enquanto a qualidade de pensamento se torna mais racional, o teor destrutivo eleva-se simultaneamente.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Bauman aponta para uma reutilização da violência ao longo do processo civilizador. A violência não deixa de existir, porém, é utilizada através de outros diversos canais de atuação. Tais impulsos acabam gerando uma concentração desta mesma violência, visto que ela passa a atuar de forma mais politizada, racional e sistematizada (ampliaram-se os métodos coercitivos através de um Estado mais burocrático). Vê-se que tal propósito só foi efetivado através de uma especialização, resultando em um “aperfeiçoamento técnico”. A eficiência deste sistema tem como base um Estado burocrático e técnico, e a partir do momento em que a violência é vista sob uma visão mais técnica, torna-se “livre de emoções e puramente racional” (Bauman, página 122).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Substitui-se então uma responsabilidade moral por uma técnica, e tal atitude é fortalecida pela divisão hierárquica do trabalho, que distancia as pessoas de um resultado final e coletivo. Uma hierarquia burocrática dá margem ao não conhecimento pleno dos efeitos, demoniza-se então as ações à medida que tal divisão torna-se funcional (há uma distância entre o participante e a tarefa a ser executada, substitui-se o moral pelo técnico). Ao se fragmentar um processo, transforma-se a consciência em algo muito irrelevante. Em suma, o autor defende que tal “substituição da responsabilidade moral pela técnica seria inconcebível sem a meticulosa dissecação e separação funcional das tarefas” (Bauman, página 125). Padrões morais tornam-se irrelevantes frente a intenção de um sucesso técnico, fruto este de uma operação burocrática.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;A ação burocrática efetiva também é responsável pela desumanização dos objetos e ações, ligados essencialmente a uma tendência racional de uma moderna burocracia. Há uma perda de identidade, resultante de um gerenciamento puramente burocrático. Segundo a opinião do autor, “a conclusão geral é que o modo de ação burocrático, tal como desenvolvido no curso do processo civilizador, contém todos os elementos técnicos que se revelaram necessários à execução das tarefas genocidas” (Bauman, página 128).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Outra discussão pertinente apresentada por Zygmunt Bauman é quanto ao aspecto “institucionalista” ou “funcionalista” do holocausto. O genocídio adquiria uma dinâmica e uma mecânica próprias, onde também deve se somar uma política expansionista. Em suma, o autor conclui que a burocracia tornou possível esta ação genocida, onde a intenção final era um amplo projeto de uma ordem social melhor, construído racionalmente.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Sobre a sociedade moderna (e, consequentemente, civilizada), Bauman converge com o historiador Norbert Elias em certas opiniões, principalmente na que se refere ao fato de tal sociedade reunir recursos à criação de centros de violência em novas locações de seu sistema social. Assim, a vida cotidiana fica completamente livre à violência, que passa a residir nas margens da sociedade (há um desaparecimento da violência no horizonte da vida diária, o que reflete ainda mais as tendências centralizadoras e monopolizadoras do poder moderno). Além do mais, tal governo estende seu apoio às instituições científicas e religiosas, em busca de gratidão e cooperação por parte destas. Vê-se, como o autor quer demonstrar, que a própria civilização moderna não ergueu barreiras contra as barbáries que ela mesma cometeu.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;O que possibilitou que o avanço de tais idéias resultasse&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;na monstruosidade do holocausto foi sem dúvida, segundo o autor, o colapso da democracia, que resultou no desmantelamento de uma ordem social mais ampla. As condições modernas tornaram propícias a emergência de um Estado pleno de recursos, que teria força no comando político e na administração. Percebe-se a modernidade como uma era de ordenamento artificial e grandes projetos sociais. A essência da atitude moderna repousa na “melhoria da realidade”. Concluindo, o autor diz que “cada passo no sentido do enfraquecimento das bases sociais da democracia política torna um pouquinho mais possível um desastre social na escala do holocausto” (Bauman, página 140).&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-5526045659767709742?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/5526045659767709742/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=5526045659767709742' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/5526045659767709742'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/5526045659767709742'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2008/05/fichamento-bauman-zygmunt-modernidade-e.html' title='Fichamento: BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e holocausto. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998. Capítulo “Singularidade e normalidade do holocausto”.'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-5621826445703148985</id><published>2008-05-01T19:06:00.001-03:00</published><updated>2008-05-01T19:08:24.729-03:00</updated><title type='text'>HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos. São Paulo, Companhia das Letras, 1995. Capítulo 5 (“Contra o inimigo comum”).</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Em seu texto, Hobsbawm dá foco central às medidas políticas adotadas, ou não, entre as nações européias no período antecedente a Segunda Guerra Mundial e também durante o transcorrer da mesma. Buscando a análise do modo de funcionamento do comportamento dos países beligerantes, o autor enfatiza que é importante destacar dosi tipos de mentalidades políticas totalmente opostas que coexistem nessa conjuntura mundial de guerra e influências: ideais autoritários e conservadores contrastam com os que são, em conjunto, contrários a esse tipo de ideologia.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;A existência de uma oposição comum, coletiva, à Alemanha de Hitler foi o que possibilitou uma aliança, mesmo que temporária, entre capitalismo liberal e comunismo. Ambos eram também vistos como inimigos a serem destruídos pelo fascismo alemão.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Hobsbawm destaca a Guerra Civil Espanhola no período que antecede o choque entre os países na Segunda Guerra mundial. Apoios e influências no conflito espanhol servem para elucidar os lados opostos que ideologias também tão divergentes de países europeus vieram a se posicionar. A cisão do mundo europeu, e no mundo em geral, passa a tomar forma, segundo o autor, a partir da Guerra Civil Espanhola.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;O ressurgimento bélico alemão também é plausível de análise se for tomado como foco central o fato de países europeus, como França e Inglaterra principalmente, terem hesitado em se opor, mesmo que fosse ao menos limitar, essa política expansivista de Hitler. O trauma da Primeira Guerra Mundial e o temor por uma outra que possivelmente viria a acontecer, segundo o autor, foram alguns dos fatores responsáveis por essa hesitação, e tal passividade veio a tornar possível que Hitler pusesse em prática, sem quase nenhuma oposição, seus projetos nazistas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Também é importante perceber o caráter de “guerra total”, que é típica de uma lógica que englobe as massas no aparelho estatal. O estudo dessas relações políticas permitem uma maior abrangência dos fatores e medidas que tornaram a Segunda Guerra Mundial possível . Além do mais, compreender o posicionamento das sociedades mundias perante este conflito de enormes proporções ajuda a perceber o quanto este enfrentamento bélico transformou socialmente tais países, a ponto de desencadear posteriormente em uma guerra com uma dinâmica e forma de ação totalmente diferente: a Guerra Fria.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-5621826445703148985?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/5621826445703148985/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=5621826445703148985' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/5621826445703148985'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/5621826445703148985'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2008/05/hobsbawm-eric-era-dos-extremos-so-paulo.html' title='HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos. São Paulo, Companhia das Letras, 1995. Capítulo 5 (“Contra o inimigo comum”).'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-2536382337529185790</id><published>2008-04-06T16:01:00.000-03:00</published><updated>2008-04-06T16:02:23.464-03:00</updated><title type='text'>Resenha Filmográfica: “Homo Sapiens 1900”. Diretor: Peter Cohen. Ano de produção: 1998.</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;O filme do sueco Peter Cohen, intitulado &lt;i style=""&gt;Homo Sapiens 1900&lt;/i&gt;, alia-se à mostra de fotos e arquivos para que o público entenda como a eugenia, tomada a partir de um ponto de vista que vise a limpeza racial, é defendida no regime hitlerista para que assim se construa uma raça superior através do aperfeiçoamento.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;A comparação entre os ideais hitleristas e stalinistas é uma alternativa do diretor para se entender concepções diferentes acerca de uma mesma medida eugênica, tanto que a própria cena em que cientistas aparecem analisando o cérebro de Stálin já diz por si só. O que o filme se preocupa primordialmente é mostrar a ciência a serviço de uma ideologia, e esta, marcada ainda mais pelo racismo. Peter Cohen foi feliz na escolha de suas imagens, documentos e vídeos, porém, é preciso ver que o diretor analisou um dos fenômenos únicos da doutrina fascista. Analisar algo &lt;i style=""&gt;uno&lt;/i&gt; possibilita um aprofundamento maior no que diz respeito aos estudos, contudo, quando o que está em discussão trata-se de algo tão complexo (tanto na teoria quanto na prática) como o nazismo, deve-se levar em conta as múltiplas ramificações que este sistema político, e social, engloba.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Questões como o nacionalismo e a modernidade aparecem de forma muito superficial no documentário. Superficiais não porque não possuam importância, mas sim porque o foco central seja a eugenia em si, e as conseqüências políticas que a mesma traga consigo. “Hitler conseguiu recrutar mais seguidores entre alemães equilibrados ao afirmar que a ciência estava ao seu lado” (EDUARDO SZKLARZ, em matéria para a revista &lt;i style=""&gt;superinteressante&lt;/i&gt;, edição de julho de 2005). Mostrar como a idéia penetrou, e foi aceita, é algo interessante de ser mostrado em um documentário, porém, muito mais dinâmico seria a análise da sociedade por um todo e das outras idéias que perpetuavam na mesma, como por exemplo, o nacionalismo, a noção nazista de modernidade, a ilusão de um ideal de beleza (que o próprio Peter Cohen analisa em seu outro documentário, intitulado &lt;i style=""&gt;Arquitetura da destruição&lt;/i&gt;), entre outras. Poucas vezes o diretor sueco relaciona idéias diferentes, de uma certa forma complementando-as. Um dos momentos &lt;st1:personname productid="em que Cohen" st="on"&gt;em que Cohen&lt;/st1:PersonName&gt; faz isso é quando trata da questão dos institutos onde mães solteiras dariam a luz à arianos, frutos de uma “raça pura”. O diretor soube explorar a idéia de procriação sistemática entrando em choque com uma sociedade nazista que exaltava o papel da família acima de tudo, e poderia debater outras questões deste tipo ao longo do filme.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;No geral, o documentário de Peter Cohen é limitado, pois se resume ao tema da limpeza racial, porém, torna-se interessante a partir do momento em que o diretor mapeia a eugenia desde o seu surgimento, mostrando políticas eugenistas em diferentes países, e também a forma como a política se alia à ciência e, principalmente, através da propaganda (a cena do filme &lt;i style=""&gt;A cegonha negra&lt;/i&gt;, do médico norte-americano eugenista Harry Haiselden é impactante, pois ele afirma que “há ocasiões em que salvar uma vida é um crime maior do que tirá-la”) ganha espaço. Em suma, essa arma político-biológica é analisada de uma forma surpreendente no documentário, porém, seja uma pena que o diretor não possa ter feito um diálogo com outros ideais pertinentes à época (quando faz, estes são limitados e superficiais).&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-2536382337529185790?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/2536382337529185790/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=2536382337529185790' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/2536382337529185790'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/2536382337529185790'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2008/04/resenha-filmogrfica-homo-sapiens-1900.html' title='Resenha Filmográfica: “Homo Sapiens 1900”. Diretor: Peter Cohen. Ano de produção: 1998.'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-5443500432020521306</id><published>2008-04-05T14:56:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T14:59:03.118-03:00</updated><title type='text'>Fichamento: PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo, Paz e Terra, 2007. Capítulo 8: p. 335-361.</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Ao início deste capítulo o autor expõe sua proposta: chegar a uma definição do que seja o fascismo. Porém, julga justo conseguir atingir o “máximo fascista”, a ponto de assim se chegar a alguma essência do movimento. Descartando a opção de um “mínimo fascista”, também diferencia os movimentos dos regimes em si, pois estes últimos seriam formas deturpadas, corruptas, ainda mais quando se leva em conta que “o fascismo em ação se assemelha muito mais a uma rede de relações que a uma essência fixa” (PAXTON, página 336).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Várias interpretações foram formuladas ao longo dos anos acerca deste sistema político e, principalmente, social. Visões de que o fascismo seria fruto do capitalismo contrastam com a opinião dos que acham que, pelo contrário, o capitalismo é que seria afetado pelo fascismo (essas interpretações opostas fazem parte da primeira tomada acerca do estudo dos movimentos e dos regimes fascistas). A psicanálise também entra em meio a essa discussão, porém, Paxton ressalta que a análise da figura do líder por si só é algo complicado, e muitas vezes errôneo, pois, na medida em que se foca essa matriz, deve-se lembrar de outros dois fatores importantes: o problema de não se trabalhar com o objeto em si e também saber que está se deixando de lado as massas fascistas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;A “teoria da não-contemporaneidade” do filósofo Ernest Bloch complementa e reforça o enfoque sociológico de que houve o surgimento de uma “sociedade de massas atomizada”, fruto de um nivelamento urbano e industrial ocorrido a partir de fins do século XIX. Os diversos clubes alemães viriam a tornar este país profundamente polarizado em inícios da década de 1930, e a isso, deve-se somar a imediata necessidade de se disciplinar um povo visando a tarefa da reconstrução após a derrota de 1918. Vê-se a partir daí o fascismo como uma força desenvolvimentista, que visa o crescimento industrial por meio da força de trabalho. Da mesma forma, “a teoria do fascismo como ditadura desenvolvimentista serve para rotular de ‘fascistas’ todos os tipos de autocracias do Terceiro Mundo” (PAXTON, página 343), ou seja, o termo adquire assim um caráter pejorativo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Outro ponto ressaltado no ponto analisado que reforça ainda mais&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;a impossibilidade da construção para uma explicação social coerente do fascismo é a idéia de que o recrutamento fascista não ocorresse em uma camada social específica, o que mostra a “multiplicidade do apoio social dado ao fascismo e seu relativo êxito na criação de um movimento composto, abrangendo todas as classes” (PAXTON, página 344).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Segundo uma “Teoria do Totalitarismo”, a Rússia de Stálin e a Alemanha de Hitler assemelham-se, pois ambos os regimes “eram governados por partidos únicos, empregavam uma ideologia oficial, usavam um controle policial terrorista e tinham o monopólio do poder sobre todos os meios de comunicação, sobre as forças armadas e sobre a organização econômica” (PAXTON, página 346). Porém, antes de se marcar as semelhanças, é preciso se entender que ambos os regimes se diferem totalmente no que diz respeito às suas dinâmicas sociais e também em seus objetivos, o que torna um pouco falha essa interpretação totalitária. Tratar Hitler e Stálin como totalitários leva a um exercício de julgamento moral comparativo. O hitlerismo e o stalinismo diferem-se principalmente em seus objetivos últimos declarados: para um, a supremacia da raça-mestra; para o outro, a igualdade universal.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;É preciso destacar que o fascismo mobilizava as massas, estimulando-as ao fervor e a ação. A partir daí é preciso ver o fascismo como uma “religião política”, onde se difunde uma verdade que não permite espaço a dissidências. O autor também mostra a sua aversão em se classificar o fascismo como um dos muitos “ismos” existentes pois o movimento desprezava a razão e o intelecto a medida em que nem mesmo se dava ao trabalho de justificar sua próprias alterações.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Decodificar a cultura das sociedades fascistas por via de um olhar antropológico trata-se de uma estratégia intelectual contemporânea. Embora importante, não consegue explicar a forma como o fascismo adquiriu o poder de controle dessa própria cultura. É preciso ressaltar também que a cultura difere profundamente de um ambiente para o outro, tornando impossível encontrar um programa cultural comum a todos os movimentos fascistas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Um meio de se entender o fascismo é, segundo Paxton, saber delimitar suas fronteiras em relação a outras formas de poder semelhantes. O primordial é diferenciar o fascismo da tirania clássica, até porque, apesar de ambos serem autoritários, o fascismo encontra apoio nas massas populares, ao contrário das tiranias, que as oprimem. Desta forma, é incorreto usar o termo &lt;i style=""&gt;fascismo&lt;/i&gt; para as ditaduras pré-democráticas. Complementando a idéia anterior, a mesma também serve para a quebra de um certo paradigma: todos os fascismos são militares, porém, nem todas as ditaduras militares são fascistas. É preciso ressaltar, para um melhor entendimento, que “a maioria das ditaduras militares atua como simples tirania, sem ousar desencadear a excitação popular do fascismo” (PAXTON, página 355).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Outra discussão que surge nesse âmbito de estudos diz respeito à confusão entre os regimes autoritários e os fascistas. O autoritarismo desrespeita a liberdade civil e é capaz de cometer diversas brutalidades. Ou seja, “os autoritários preferem deixar suas populações desmobilizadas e passivas, ao passo que os fascistas querem engajar e excitar o público” (PAXTON, página 356).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Para o autor, a diferenciação entre fascismo e autoritarismo surge como base para se discutir os regimes políticos de Franco na Espanha, de Salazar em Portugal e de Vicky na França.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Desta forma, Paxton chega a seguinte definição: “o fascismo tem que ser definido como uma forma de comportamento político marcada por uma preocupação obsessiva com a decadência e a humilhação da comunidade, vista como vítima, e por cultos compensatórios da unidade, da energia e da pureza, nas quais um partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados, operando em cooperação desconfortável, mas eficaz com as elites tradicionais, repudia as liberdades democráticas e passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por meio de uma violência redentora e sem estar submetido a restrições éticas ou legais de qualquer natureza” (PAXTON, página 358-359).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Porém, é preciso ressaltar que, devido a peculiar relação do fascismo com sua ideologia, que era frequentemente modificada ou violada conforme a conveniência do momento, torna-se possível se “evitar ambos os extremos: o fascismo não consistia nem da aplicação direta de seu programa nem de oportunismo imediato” (PAXTON, página 359).&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-5443500432020521306?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/5443500432020521306/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=5443500432020521306' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/5443500432020521306'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/5443500432020521306'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2008/04/fichamento-paxton-robert-o-anatomia-do.html' title='Fichamento: PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo, Paz e Terra, 2007. Capítulo 8: p. 335-361.'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-1584488556577165090</id><published>2008-03-25T14:05:00.000-03:00</published><updated>2008-03-25T14:07:12.645-03:00</updated><title type='text'>Fichamento: PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo, Paz e Terra, 2007. Capítulo 1: p. 13-49.</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;O fascismo, segundo elucida o autor logo ao início de seu texto, trata-se de uma resposta do poder conservador, buscando brechas na mesma legalidade que outras correntes políticas opostas se sustentaram. Isso possibilitou&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;a construção desta “ditadura antiesquerdista cercada de entusiasmo popular”. O termo &lt;i style=""&gt;fascismo&lt;/i&gt; fora cunhado primeiramente por Mussolini, e viria a ter como base de sua existência um “sólido núcleo central”, este formado por veteranos de guerra que se sentiam no direito de governar o país que haviam anteriormente salvo. O programa fascista italiano tratava-se da mescla de um patriotismo de veteranos com uma atitude social radical. O movimento também se caracterizava pelo antiintelectualismo, pela rejeição a soluções de compromisso e também pelo desprezo à sociedade estabelecida (traços estes marcantes dos veteranos bélicos, dos sindicatos pró-guerra e dos intelectuais futuristas, grupos estes que constituíram a massa dos primeiros seguidores do movimento político).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Formar uma sociedade livre e coletivista foi o pensamento que se difundiu entre os nacionalistas, armando assim um terreno sólido e fértil para a aceitação de uma "revolução nacional radical". Movimentos que lutavam em nome de um “bem nacional maior” vinham surgindo não só na Itália, mas também na Europa do pós-guerra. Era comum a quase todos estes movimentos o nacionalismo exacerbado, o anticapitalismo, o voluntarismo e a violência ativa contra os inimigos. Caminhava-se à efetuação de uma revolução “sem ideais que a embossassem, contrária às idéias, contrária a tudo o que há de mais nobre, de melhor, de mais decente, contrária à liberdade, à verdade e à justiça” (PAXTON, página 21). Nas palavras do filósofo-historiador Benedetto Croce, surgia assim o mau governo da “onagrocacia”, o governo dos asnos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Onze anos depois do Partido Fascista de Mussolini ocupar o poder na Itália, um outro partido fascista toma o poder na Alemanha. O nazismo surge de uma degeneração moral aonde técnicos ignorantes e superficiais, apoiados por uma coletividade das massas ansiosas, haviam triunfado sobre os equilibrados e racionais humanistas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Segundo Paxton, inúmeras interpretações e definições acerca do fascismo foram apresentadas, porém nenhuma alcançou aceitação universal. Não se há encontrado uma explicação satisfatória para este fenômeno que, aparentemente surgindo do nada, tomou múltiplas e variadas formas, onde todas exaltam o ódio e a violência em nome da superioridade nacional. Ademais, “os movimentos fascistas variavam de forma tão evidente de um contexto nacional para o outro que há quem chegue a duvidar de que o termo &lt;i style=""&gt;fascismo&lt;/i&gt; de fato signifique algo além de um rótulo pejorativo” (PAXTON, página 22).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;É importante estabelecer, portanto, uma nova visão acerca do fascismo, resgatando seus conceitos e buscando-se uma melhor análise do fascínio que tal movimento provoca. Rever sua complexa trajetória histórica, e todo o horror que esta envolve, é a base fundamental do o autor para se chegar a este objetivo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;O que não se pode ocorrer é que a imagem de um líder personalize o fascismo, dando a entender que tal fenômeno possa ser explicado isoladamente pela sua liderança. Não se deve caracterizar o regime como anti-semita, pois nos primeiros tempos Mussolini contou com o apoio de industriais e proprietários de terra judeus, que lhe forneceram ajuda financeira.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Uma outra característica supostamente essencial do fascismo é seu ânimo anticapitalista e antiburguês. Para alguns, o fascismo é uma forma radical de anticapitalismo, para outros, veio em socorro do capitalismo &lt;st1:personname productid="em apuros. Para" st="on"&gt;em apuros. Para&lt;/st1:PersonName&gt; o autor, o que de fato o fascismo fez é tão informativo quanto o que disse que iria fazer. O que o regime criticava no capitalismo não era sua exploração, mas seu materialismo, sua indiferença para com a nação.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Paxton adota o mesmo conceito de “revolução fascista” do professor Francisco Carlos. Para ambos o regime era revolucionário em um sentido especial, longe da subversão da ordem mundial e muito mais ainda da redistribuição dos poderes, sejam estes sociais, políticos ou econômicos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;A grande ambigüidade do fascismo é a dificuldade em ser situado no plano político de direita-esquerda, pois o mesmo transcede essas divisões arcaicas visando um objetivo único: unir a nação. Outra contradição apontada no texto entre a retórica e a prática fascista diz respeito à modernização, pois é difícil postular que a essência do fascismo se reduza a uma reação antimodernista ou a uma ditadura da modernização. Esta paradoxal relação do fascismo confunde os que buscam uma origem única para tal movimento, pois, ao mesmo tempo em que se buscava evitar os efeitos sociais negativos da modernidade, tal caminho só se mostrava possível através da integração e do controle, ou seja, fruto de uma “modernização alternativa fascista”, onde na verdade havia uma “racionalidade científica que rejeitava os critérios morais” (PAXTON, página 33).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Ao se estudar o fascismo muitas vezes se dá valor exacerbado a datas e também a grandes feitos, esquece-se a cumplicidade das pessoas comuns no estabelecimento e &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;no funcionamento dos regimes fascistas. O autor apresenta uma série de dificuldades, até aqui, na busca por uma essência única, o famoso “mínimo fascista” (PAXTON, página 35), que, supostamente, permitiria a estudiosos do mundo todo a formulação de uma definição clara e geral do fascismo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;O fascismo trata-se mais de que uma simples idéia, é todo um sistema de pensamento subordinado a um projeto de transformação mundial. “O fascismo não se baseia de forma explícita num sistema filosófico complexo, e sim no sentimento popular sobre as raças superiores, a injustiça de suas condições atuais e seu direito a predominar sobre os povos inferiores” (PAXTON, página 38). O movimento não tem como base sólida nenhuma doutrina, não recebe embasamento intelectual ainda mais quando suas verdades são ditas e vistas como algo absoluto.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;O autor informa que os líderes fascistas não possuíam um programa para que se sentissem presos a qualquer tipo particular de forma doutrinária, ainda mais porque, segundo a própria visão fascista, o poder vinha em primeiro lugar, e a doutrina, qualquer que fosse, viria depois. Desta forma, os programas eram informais e fluidos, o que caracteriza o “antiintelectualismo” do movimento, já que tanto Hitler quanto Mussolini não se preocupavam com justificações teóricas. Porém, o fascismo só se tornou algo possível de se imaginar graças aos seus intelectuais dos primeiros tempos, que exerceram influências importantíssimas e de diversos tipos. “Com vistas a se tornar um ator político importante, conquistar o poder e exercê-lo, os líderes lançaram-se à construção de alianças e soluções de compromisso político, pondo de lado, assim, partes de seu programa e aceitando a defecção ou a marginalização de alguns de seus militantes de primeira hora” (PAXTON, página 43).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Já que cada movimento nacional fascista trata-se da expressão plena de cada particularidade cultural, o autor propõe a essa variedade o método comparativo para enfim se buscar as razões para os diferentes resultados do que parecia ser um movimento&lt;i style=""&gt;, a priori&lt;/i&gt;, uno. Diante destas variedades, torna-se muito difícil também chegar a uma definição de “mínimo fascista”. Paxton rejeita um nominalismo dos diversos movimentos fascistas pois vê a necessidade de um “termo genérico” para o fenômeno geral em si, já que o mesmo trata-se de uma das novidades políticas mais importantes do século XX, uma vez que se trate de um movimento popular contra a esquerda e contra o individualismo liberal.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Examinar o fascismo, desde os seus primórdios até o “cataclismo final”, é o que permitirá aos estudiosos a penetrarem na complexa teia de interações sociais formadas pelo movimento, o que talvez resulte em &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;se chegar a uma definição correta do mesmo. Ou seja, necessita-se de uma análise histórica. Os fascismos conhecidos por todos “chegaram ao poder com o auxílio de ex-liberais amedrontados, tecnocratas oportunistas e ex-conservadores, e governaram conjuntamente com eles, num alinhamento mais ou menos desconfortável” (PAXTON, página 49). Tal complexidade faz com que se exija algo muito mais elaborado do que a clássica dicotomia que é formada entre &lt;i style=""&gt;movimentos&lt;/i&gt; e &lt;i style=""&gt;regimes&lt;/i&gt;, até porque embora muitas sociedades tenham elaborado movimentos fascistas ao longo do século XX, poucas chegaram&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;a possuir regimes fascistas de fato.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-1584488556577165090?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/1584488556577165090/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=1584488556577165090' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/1584488556577165090'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/1584488556577165090'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2008/03/fichamento-paxton-robert-o-anatomia-do.html' title='Fichamento: PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo, Paz e Terra, 2007. Capítulo 1: p. 13-49.'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9142353035699261819.post-6883635609190965900</id><published>2008-03-17T20:38:00.000-03:00</published><updated>2008-03-17T21:51:54.521-03:00</updated><title type='text'>Fichamento: SILVA, Francisco C. T. da. “Os fascismos” In.: REIS FILHO, Daniel Aarão. Século XX. Vol. II: o tempo das crises.</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Avaliar as condições sociais que possibilitaram que as atrocidades do fascismo se efetivassem, além do medo, é claro, de uma reincidência, são, para o autor, o que separa o historiador contemporâneo do historiador que escreveu no imediato pós-guerra (pois estes últimos vêem o fascismo como um movimento morto, puramente histórico e, desta forma, preso em seu próprio passado). Não é puramente histórico até porque se encontra indissociável do neonazismo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Para o autor, dizem-se fascismos, pois cada um recobre uma só realidade política. O termo vem da expressão latina &lt;i style=""&gt;fascio&lt;/i&gt;. Há uma mudança no sentido do &lt;i style=""&gt;fascio&lt;/i&gt;, que varia de um símbolo típico da esquerda e dos movimentos trabalhadores (representando justiça e igualdade) para o campo da direita ultranacionalista. No final da década de 80, observa-se uma retomada no interesse acerca do fascismo em si, surgindo novas abordagens e também novas teorias explicativas. Tal rediscussão ressurge pois após 50 anos do fim da guerra alguns países publicam seus arquivos referentes ao fascismo, além do ressurgimento do fascismo como movimento de massas em países europeus.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Tais acontecimentos possibilitaram novas análises conceituais sobre o fascismo diferentes à historiografia de cunho demais histórica anterior aos anos 80, que via o movimento como historicamente determinado e não mais possível de se repetir.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;O autor preocupa-se em apresentar uma teoria explicativa geral do movimento político chamado fascismo, porém, longe da abordagem única e exclusivista do fenômeno (típica do imediato pós-guerra), que centra a atenção no nazismo somente. Busca-se estudar o fascismo tal como movimento de origens autônomas, nacionais. Desta forma, o autor vai contra a redução do fascismo a um acidente histórico, o que limitaria seus agentes colaboradores e envolvidos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;O que sustenta tal hipótese é o caso alemão, onde a “desnazificação” é marcantemente incompleta, o que permite uma ponte visível entre o próprio fascismo histórico e o neofascismo. A partir de tais atos, há uma “demonização” da história alemã. O que não pode acontecer é o fascismo ficar circunscrito ao nazismo e, assim, exclusivamente associado à história alemã (que é o que infelizmente ocorre na imediata historiografia pós-guerra). Embora confortadora, tal versão surge como uma explicação simplista do fenômeno, reduzindo o holocausto e o fascismo a uma possibilidade histórica já encerrada.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;É necessário um debate teórico sobre a natureza do fascismo, o que garantiria a autonomia de tal teoria em face dos fenômenos que o envolvem. Os fascismos, enquanto regimes autoritários antiliberais,&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;antidemocráticos e anti-socialistas possuiriam suas próprias especificidades nacionais que, por sua vez, não descaracterizariam a universalidade e autonomia do fenômeno ante outras formas de autoritarismo. A &lt;i style=""&gt;Teoria do totalitarismo&lt;/i&gt; seria o que caracterizaria o fascismo como um Estado autoritário onde, espiritualmente ou materialmente, não existiria qualquer atividade humana fora do Estado.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Consequentemente, o resultado para as grandes massas seria a participação mecânica ou a militância fanática, onde o fundo comum seria a mobilização contra um inimigo comum, objetivado. Tais condições específicas de massas (elemento passivo, manipulável e capaz de furores coletivos) é o que propiciaria o domínio totalitário.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;A historiografia sobre o fascismo sofre uma reviravolta a partir de 1991, quando há uma nítida ressurgência do fascismo. Há um choque com a historiografia tradicional a partir do momento em que o cenário europeu nos anos 90 mostra-se claramente tensionado pela presença de partidos e agrupamentos neofascistas. Opõe-se assim ao caráter histórico (único e não retomável) do fenômeno fascista. Ora, a explicação histórica do fascismo (como um fenômeno exclusivo de uma época) se enfraquece perante estas novas circunstâncias.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Devido à ressurgência não há uma teoria em si absoluta sobre o fascismo, até porque os eventos históricos não explicariam de fato o fascismo histórico. Tal retomada obriga ao uso de um novo arsenal teórico e de novos métodos, até porque necessita-se da explicação de movimentos fascistas pertencentes a épocas diferentes. Como conseqüência, não se pode unificar a teoria explicativa do fascismo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;A intenção primordial do autor ao longo de seu texto é a tentativa de recuperação do fascismo como grande unidade de análise, agrupamento de configurações políticas de traços diversos, marcado, entretanto, por forte coerência interna e externa. Na Europa, há uma eficaz teia de identidades e colaboração entre os diversos regimes e movimentos fascistas, muitas vezes superando adversidades históricas e nacionais. Havia, de fato, um discurso coerente e unificado em torno do fascismo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Apesar disso, cada fascismo sempre defendeu sua plena originalidade histórica e nacional, buscando desenfreadamente por um passado justificador, componente este básico do extremo nacionalismo dos fascismos. Todos os fascismos reivindicavam originalidade histórica, porém, todos também propunham um mesmo programa, o que possibilitaria a existência de um modelo “a-histórico”. Partindo de tal proposta, o autor trabalha o conceito de fascismo como uma unidade de traços diversos que dão coerência a um fenômeno.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Propositalmente, chegar a um modelo de fascismo dependerá primordialmente de um método comparativo, onde as diversas experiências fascistas serão postas lado a lado.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;O estabelecimento de uma tipologia do fascismo que contemple seu caráter ao mesmo tempo autônomo e universal é então proposta a partir da comparação das diversas experiências fascistas. É preciso levar em conta que movimentos fascistas que não chegaram ao poder apresentam um perfil mais bem desenhado do que os regimes estabelecidos, até porque muitas vezes regimes fascistas chegaram ao poder através de pactos e alianças com outras forças conservadoras, sendo obrigados a abrir mão de parte do seu ideário inicial, perdendo assim sua originalidade a partir do momento em que certas forças limitam e redesenham tais regimes.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Tal método comparativo exclui a Alemanha do papel de “modelo exclusivo”, passando a se levar em conta a ideologia, o estilo político, os objetivos e as formas de dominação.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Pensa-se, a partir de certa parte do texto, em se explicitar uma concepção de mundo própria do fascismo, comum a vários regimes. Desta forma, o fascismo aparece como algo que engloba o total, que envolve e explica toda a vida. Sendo assim, suas idéias são levadas ao extremo em que foram anunciadas, mesmo que, para outras lógicas, apareça de forma confusa ou contraditória.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;A crise contemporânea, para os fascistas, é fruto das formas liberais de organização e de representação, o que de certa forma o legitima como sucessor de um sistema que não consegue manter a coesão nacional. O parlamentarismo e o liberalismo são duramente atacados pela doutrina fascista, que os julga como fragmentadores de um ideal coletivo nacional. O próprio Partido Nazista vê como papel da doutrina fascista a não-liberdade liberal, que iria contra os anseios das massas. As necessidades dos novos tempos exigiriam um Estado forte, que impediria o conflito social no plano interno, fortalecendo assim o país no plano externo, pois, tal Estado (já que é totalitário) velará pelo interesse de todos. O anti-liberalismo fascista torna-se assim uma doutrina, que vê tal idéia como um elemento desagregador, pois este lançaria os indivíduos na multidão anônima, o que destruiria seus laços de identidade e de incorporação a um certo grupo. Concluindo: o que será idealizado e realizado pelo fascismo é reunir sob a potência do Estado os objetivos de uma coesão social.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Para os fascistas, a existência de partidos políticos possibilita que haja o agrupamento de certos interesses que sejam não-nacionais, o que serviria de fonte para discórdias e divisões das nações. A democracia então romperia a unidade com o povo ao dividi-lo em unidades políticas, onde um partido anula os projetos e esforços do outro. Outro elemento marcante da ordem social liberal seria a diferenciação da esfera do público e do privado.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Opondo-se ao liberalismo desagregador, o fascismo possuiria uma variada gama de organicismos socias. O Estado é visto de forma harmoniosa (sem contradições internas), diferentemente do Estado liberal (marcado pelas divisões grupais). Tal “Estado orgânico” não presenciaria lutas e contradições entre as forças da Nação.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Em prol de tal ideal, concede-se total direito a um líder (no caso alemão, o &lt;i style=""&gt;führer&lt;/i&gt;), que garantiria o bem-estar da comunidade popular. Tal decisão dá ao Estado uma liberdade para a repressão nunca antes vista. Na Alemanha as fraquezas do Estado são erradicadas (a luta partidária), e com a fundação do Partido Nacional-Socialista proclama-se a unidade entre partido e Estado. Este novo Estado seria o contratipo do Estado liberal. Um Estado autoritário seria a única forma de se alcançar a verdadeira unidade entre povo e Estado.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Apesar disso, para o autor, longe de ser caracterizado como uma autocracia, o Estado fascista surge como uma &lt;i style=""&gt;policracia&lt;/i&gt;, com fontes autônomas de poder, com objetivos muitas vezes conflitantes, reunidos em torno de uma doutrina que serve de argamassa, girando em torno da personalidade autoritária e carismática do líder nacional. Tal organização trata-se de uma resposta à crise de identidade gerada pelo individualismo liberal, onde o papel do Estado é se erguer como uma força aglutinadora da nação. O Estado fascista não é assim somente autoritário, mas também popular.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Um Estado orgânico, integral, seria a resposta adequada ao liberalismo (que seria o elemento causal da crise, e sua existência originaria, permanentemente, as condições de desagregação da sociedade), servindo como recomposição social das nações. Porém, não se pode pensar que o estado é o objetivo central da ação fascista, mas sim um instrumento indispensável e fundamental que garantiria a própria existência da comunidade nacional. Para isso, tal processo deveria basear-se numa idéia-força, como a raça, a nação ou o império (ou seja, algo que aglutinasse o povo).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Havia um projeto fascista, capaz de arrastar multidões em direção de decisões de um líder único. E é nesse sentido que o fascismo mostra sua superioridade enquanto “metapolítica”, com base em um “Estado&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Corporativo”. Deve-se notar aí a profunda operação de subversão de valores exercitada pelo fascismo. Tal papel não é percebido dentro de uma historiografia clássica sobre fascismo. É preciso se entender que a principal tarefa do fascismo é fazer cessar as causas da degradação social, transcendendo ao estranhamento dos indivíduos e dotando-os de uma identidade autêntica.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Uma “teia social de novo tipo” precisa ser traçada. Em vez de tensões sociais, o fascismo busca um quadro social onde tudo, e todos, estarão harmoniosamente unidos em prol dos interesses da Nação (caráter fortemente popular). Esta nova comunidade teria como base primordial a identificação mútua entre seus membros. No caso alemão e italiano, a retórica fascista precisou levar em conta um fortíssimo movimento operário e sindical. Desta forma, segundo o próprio Hitler disse, o Nacional-Socialismo trabalharia a fim de realizar um programa que conduzisse à eliminação completa das diferenças de classes e ao estabelecimento de uma comunidade socialista. Percebe-se que se buscavam formas de organização que preenchessem o vazio deixado pela extinção das organizações sindicais. Seria um instrumento de enquadramento das massas e, principalmente, para sua vigilância.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Criavam-se, assim, as condições para o avanço de uma nova regulação econômica, onde a constituição de formas corporativas objetivaria reorganizar a economia num sistema anticrise (algo que o liberalismo não podia mais fazer). Neste caso, o fascismo abria caminho para o estabelecimento de um vínculo com o socialismo, o que garantiria ao fascismo ser o verdadeiro socialismo em si, posto que seria nacional.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Em especial, temia-se o fascismo provincial, revolucionário, ante o fascismo oficial. O verdadeiro objetivo (no caso alemão) era a formação de um “Estado potência”, onde o novo homem fascista, o “super-homem”, seria apenas a argamassa, a base deste Estado. É exatamente por se definir enquanto um regime de produtores, nacional e defensor do bem-estar coletivo, que o fascismo se define como socialista (corporativismo como base). Segundo o próprio autor, “o dirigismo estatal e a organização corporativa, além de reconstruírem uma identidade perdida ao longo da instauração da sociedade industrial, liberal e de massas, surgiam como poderoso instrumento anticrise”.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Fixando-se o que é nacional, tudo o mais é lançado ao pólo extremo do antinacional, tanto é assim que na Alemanha o ódio as judeus tomou aspecto de uma política nacional. Judeus e ciganos inserem-se na mesma realidade: são universais, cosmopolitas, falam línguas distintas, impedem a homogeneidade a coesão nacionais. A alteridade social e individual surge, assim, como objeto central de ação do fascismo (no fascismo não há espaço para o outro, tampoco para a educação e conversão desse elemento estranho em um novo homem). Este sistema ideológico faz com que o fascismo identifique em si mesmo valores absolutos, e assim, qualquer diferença se torna objeto de eliminação violenta.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;O Holocausto deve ser filiado a uma concepção de mundo que nega qualquer possibilidade de um contratipo ao seu padrão, e não à história específica de um povo. Tal estranheza é a condição psicológica básica para o genocídio, sem a qual Auschwitz não seria possível.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;A educação fascista foi, por excelência, geradora de tal estranhamento. Durante a efetivação do desejo fascista de instaurar uma sociedade orgânico-corporativa de fortes bases tecnológicas, incentivava-se o indivíduo ao apelo por uma modernidade maciça, desviando sua capacidade de amar os semelhantes a medida em que se apaixonava pelas máquinas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Forma-se então um “eu regressivo”, incapaz para o amor com o outro, com quem não há identidade possível. Não são os judeus, ciganos ou gays que trazem em si a possibilidade do Holocausto; esta reside, segundo o autor, naqueles que, em virtude do estranhamento, não se habilitaram para o amor. A idéia-força, presente nos métodos educacionais, seriam pontos de partida para a construção de tal personalidade autoritária. Há, portanto, uma regressão histórica, com o retorno à massa anônima, moldável, manipulável à voz de um líder. O novo Estado fascista moldaria as emoções burguesas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Nos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936, onde o esforço e a capacidade individual deveriam se destacar, o Estado fascista impõe a idéia de pertencimento dos indivíduos a uma engrenagem.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Assim, “a alteridade é plenamente identificada com o liberalismo, com seu caráter antinatural e antinacional, com a desestruturação da comunidade orgânica nacional ou racial e com o espírito de facção do marxismo. Somente o fascismo seria o portador de uma moralidade capaz de forjar o novo homem, o bárbaro do futuro” (SILVA, página 159).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;O antiliberalismo, antimarxismo, organicismo social, liderança carismática e negação da diferença marcam a possibilidade de identificação do fascismo enquanto regime ou forma de dominação específica, onde o que se distingue é seu caráter metapolítico (mobilizado para a incorporação da nação) que visa uma concepção de mundo única, excludente e terrorista. Desta forma, o fascismo surge como um caminho único, sem volta, que visa arrancar o indivíduo de uma situação de estranhamento e anomia.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;O autor preocupa-se em explicar o fascismo, e não apenas o momento histórico da tomada do poder pelos fascistas, pois mesmo sem exercer plenamente o poder, o fascismo como movimento é capaz de alterar profundamente o cenário político.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;A “revolução fascista” não teria como foco então alterar as condições materiais do indivíduo, muito menos em promover a distribuição da riqueza social; trata-se de salvar o coletivo (a comunidade) da aniquilação ante o outro (o estranho/estrangeiro), assumindo assim um caráter reativo e defensivo em face do perigo de fragmentação ante a hegemonia liberal.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Segundo o próprio autor, limpar o país dos antinacionais ou expulsar o imigrante estrangeiro trata-se de um objetivo que expulsa o debate em torno das causas do mal-estar e identifica um alvo para a realização do ódio. Em uma “religião de Estado”, submerge-se o indivíduo em identidades coletivas.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9142353035699261819-6883635609190965900?l=ifcsianovitor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/feeds/6883635609190965900/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9142353035699261819&amp;postID=6883635609190965900' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/6883635609190965900'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9142353035699261819/posts/default/6883635609190965900'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ifcsianovitor.blogspot.com/2008/03/fichamento-silva-francisco-c-t-da-os.html' title='Fichamento: SILVA, Francisco C. T. da. “Os fascismos” In.: REIS FILHO, Daniel Aarão. Século XX. Vol. II: o tempo das crises.'/><author><name>Vitor Lopes Moreira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05029316223610372947</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='18' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-QSEn0cfJ0co/TZkcNbbpDRI/AAAAAAAAAEc/QP9vVFvcKvA/s220/Close.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
